Francisca Clotilde nasceu em Tauá, CE aos 19 de Outubro de 1862. Faleceu em Aracati aos 08 de dezembro de 1935.
Fez as primeiras letras com a professora Ursulina Furtado na Vila de Baturité. Cedo demonstrou aptidões poéticas, antes de completar 15 anos teve poema publicado em tradicional Jornal da Capital da Província. Diplomou-se no Colégio Imaculada Conceição em Fortaleza.
Aos 20 anos tornou-se professora interina de escola anexa à Escola Normal. Aos 22 anos foi aprovada em concurso para referida escola (1884).
Membro da Associação da Senhoras Libertadoras, Órgão do Movimento Abolicionista. Foi também participante do Centro Literário. Há quem diga que sua produção literária em jornais e revistas da época dariam volumes.
Autora de: Livro de Contos (1897), de Noções de Arithmetica (1889), também de um romance, A Divorciada (1902).
Criou em Fortaleza uma Escola Particular, denominada Escola Santa Clotilde (1891). Morou em Acarape, em Baturité e por último em Aracati (1908-1935), nessa última cidade fundou o Externato Santa Clotilde.
Pois bem, aqui trazemos alguns sonetos de sua autoria.
LIVRE
Que santo entusiasmo acorda em nosso peito
A aurora deste dia esplêndido, imortal
Que vem nos relembrar a data festival,
De nossa Pátria o mais sublime feito
E este povo heróico, à nobre luta afeito
Se agita e vai saudar a deusa sem rival
Que intrépida venceu a plêiade do mal,
Ao escravo redimido em nome do direito.
O Mundo se extasia lembrando a imensa glória,
Com que se aureolou no instante da vitória
A princesa do Norte, a filha de Tupã.
E o Mar que balançou o lenho da jangada,
A ave sem gorjeio, a brisa perfumada
Repetem nesse dia: _"É Livre o Ceará".
F. Clotilde. O LIBERTADOR, 25 de Março de 1887
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DESERTO
Esta casa que vês arruinada,
Solitária e deserta no caminho,
Foi outrora de noivos casto ninho
De ilusões e de risos povoada.
E hoje, como fúnebre morada...
Já não conserva o traço de um carinho,
Nem se ouve o trinar do passarinho,
Em seu muro, ao romper da madrugada.
Assim meu coração d’antes repleto
De esperanças e cândidos amores
É hoje como um túmulo, deserto;
E o vergel onde outrora as lindas cores
Das rosas de um porvir risonho e certo
Brilhavam, tem espinho em vez de flores!
A Quinzena, 1887
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À Memoria da Virtuosa Irmã Margarida Bazet
Seus lábios não provaram neste mundo
A taça do prazer que nos seduz,
Desprezou a grandeza... uniu-se à cruz,
Aos que sofrem votou amor profundo.
Guiou-me a infância, terna e desvelada
No caminho do bem, tinha carinhos
Para os prantos dos tristes orphãosinhos,
Era tão boa, meiga e dedicada!
Descansa em paz, Oh! doce criatura,
O mundo não podia a formosura
De tua alma de santa compreender;
Ele que é não, inconsequente e rude
Eleva o vício e abate a sã virtude!
Só entre os anjos poderás viver...
O Libertador. Fortaleza CE, 6 de maio de 1887
OÁSIS
Eis-me em pleno deserto! extenuada
Aos ardores do sol, febril, sedenta,
Minh’alma se acobarda e desalenta
Pobre flor - sem orvalho, definhava.
Nem se quer com seu pranto a madrugada
Ilude minha sede - Dor cruenta,
A vida me tortura, atroz e lenta
Sem deixar-me um momento aliviada.
No entanto - como um sonho benfazejo
Que ao misero consola, eu entrevejo
Ao longe, do deserto pelo horror,
Aves, flores, palmeiras verdejantes,
Regatos cristalinos, sussurrantes.
O oásis gentil do teu amor!
Jane Davy. Libertador. Fortaleza CE, 06/02/1887.
HOMENAGEM (À Ana Nogueira)
Não te corre nas veias delicadas
O sangue azul da fátua realeza,
Nem te cerca o prestigio de grandeza
Que enaltece as cabeças coroadas;
Desconheces as regras variadas
De etiqueta-requinte da nobreza,
Nem preferes à doce singeleza
Em que vives as cortes decantadas.
A teus pés não se curva a multidão
Para beijar tua pequenina mão,
Quando passas incógnita e sozinha;
Mas, sendo, como és formosa, e boa,
Tens uma bela e fúlgida coroa,
E vales muito mais que uma rainha.
Jane Davy. A Quinzena. Fortaleza CE, 16 de Abril de 1888.
ÁRVORE
Ao contemplá-la, triste, emurgercida,
Os galhos nus de folhas despojados,
Sem a seiva que outrora tanta vida
Lhe trazia em renovos delicados;
Ao vê-la assim tão só, tão esquecida,
Tendo gozado dias tão folgados,
Ao som dos passarinhos namorados,
Que nela achavam sombra apetecida:
Ai! sem querer encontro semelhanças
Entre meus sonhos, minhas esperanças
E a mirrada árvore dolente.
Ela perdeu as folhas verdejantes,
Bem como eu as ilusões fragrantes
Que outrora me embalavam docemente.
Almanach do Ceará. Fortaleza CE, 1897 In: Guimarães. Hugo V.
Sonetos Cearenses. Fortaleza: UFC, 1938
MARIPOSA
Incauta mariposa em torno à luz
Viceja pela chama fascinada,
Até que enfim examine, crestada
Cai em meio do fogo que a seduz.
A chama que dos olhos teus transluz
Tem minha alma em desejos torturada
E ai tento fugir mais abrasadas
Me sinto neste amor que cresce a flux.
Oh! Fecho os negros olhos sedutores,
Não me queimes nos fervidos ardores
De uma louca paixão voraz e forte
Receio que minha alma caia exausta
Neste abismo de luz como a pyrausta
Que buscam o prazer e encontra a morte.
A Quinzena. Fortaleza CE 15 Maio 1887
PAISAGEM MATINAL (Jane Davy)
Vai
despontando a luz irradiante
Do rei
do espaço... a terra se ilumina,
A névoa
foge ao riso da matina,
Rompe a
rosa o envolueiro fragrante.
Evola-se
num perfume inebriante
Do meio
dos jardins, e na campina
Escuta-se
a harmonia peregrina
Das
aves n’um concerto deslumbrante
E a
gente ao ver a loura natureza
Inundada
de luz e de beleza
De
flores, de perfumes e de gorjeios,
Sente
um bem inefável que conforta
E a dor
do prazer já quase morta
Desabrocha
no íntimo do seio!
Jane Davy. A Evolução.
Fortaleza CE, 1888)
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O SONHO DE COLOMBO (Ao Dr. Cintra Luiz)
Dorme embalado na caricia rude
Da vaga azul, indômita, fremente,
E um áureo sonho ao viajar ilude
Bela visão do lábio sorridente
É ela, a Gloria? Oxalá, não mude
O rumo ousado ao genial dormente,
Que durma, pois, assim tranqüilamente
Do velho mar na intérmina amplitude!
Que sonho é esse? Um mundo, o mundo novo,
E no futuro o progredir de um povo,
Grande na paz, impávido na guerra;
Eis que o gajeiro brada alviçareiro;
E o brado ecoa no universo inteiro
Levanta-te, Colombo! Terra. Terra.
O Botão do Lyrio. Baturité - Ceará. 05/11/1903.
A REDENÇÃO
A treva esconde a face delicada
Do Salvador enxague sobre a Cruz,
Mãe comprimida ao lenho de Jesus
E a natureza treme horrorizada.
Nem um conforto! Só a desvelada
Mãe comprimida ao lenho de Jesus
Sente pungir-lhe na alma desolada
A dor cruel que a pena não traduz.
Silencio, trevas, magoa, confusão!
Eis terminada a lúgubre Paixão
Consumou-se a tragédia deicida.
Abriu-se o eco, oh! justos, exultai!
Flori boninas! Aves gorjeai
Saudando a humanidade redimida!
Revista O Lyrio Recife/PE abril/maio de 1904
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NINHO DESFEITO
Ainda há pouco cantava docemente,
Num transporte de cândidos amores,
O casal de avesinhas inocentes,
A tecer o seu ninho entre as flores.
Embebidas num sonho transparente,
Elas iam saudando os esplendores
Do sol que, despontando sorridente,
Resplendia da serra nos verdores.
Mas ah! Um caçador despiedado
Perturbou os idílios de noivado
Roubando ao par gentil a felicidade,
Hoje o ninho balouça-se deserto
_ Monumento gentil que lembra incerto
Um mistério de amor e saudade!!
Almanach. 1905 p.157 In: BARREIRA, Dolor. História da Literatura Cearense, 1950 p. 185.
A PAZ
(Ao grande espírito do Dr. Eduardo Dias)
Estende sobre nós as asas benfazejas,
Afasta para longe a sanguinária guerra;
És astro protetor, a iluminar a terra,
És anjo divinal nas hórridas pelejas.
Teu sorriso traz bonança e, qual íris, descerra
O negror da procela... Abençoada sejas;
Oh! Paz consoladora o nosso bem almejas,
Estrela vesperal que doce luz encerra.
Vem os homens unir, vem espalhar o amor,
Tem pena do sofrer das mães em ansiedade,
De ternos corações mova-te a íngreme dor;
Temos sede de ti, lenitiva à orfandade,
Com eflúvios do céu, num gesto animador,
Lembra o santo dever, as leis da caridade!
Revista A Estrella. Aracati CE, Fevereiro de 1918
O ALVORECER
Vai pouco a pouco o sol iluminando
A terra que se cobre de verdores,
Cantam as aves pelo azul voando
Seus inocentes, cândidos amores.
Por toda a parte luzes e primores
Sente-se o aroma delicado e brando
Da fresca rosa, as pétalas soltando
A natureza ostenta-se em fulgores.
Oh! Como é belo o despontar do dia!
Que coração não pulsa de alegria,
Ao ver a luz avassalar a terra?
Ergue-se a Deus o olhar agradecido
E o homem forte sente-se vencido
Pelas belezas que a manhã encerra!
Revista A Estrella. Aracati CE, Fev 1909
MINHA ESTRELLA
Declina o dia.. e nuvens cor-de-rosa
Vão adornando as fímbrias do poente,
No espaço azul de leve transparente
Surge uma estrela tímida e radiosa.
É a primeira. Eu fito-a carinhosa,
Enquanto vou pensando tristemente,
Ao pôr-do-sol, à hora transcendente
Em que a saudade vibra angustiosa.
Em breve o céu se mostra marchetado
De estrelas, e assim belo, constelado,
Como é sublime e traz inspiração!
Eu procuro então ver a minha estrela
Que fitava entre todas a mais bela,
Mas não posso encontrá-la na amplidão.
AO CORAÇÃO
Porque suspiras, coração dolorido?
Ermo de afetos, cheio de amargura!
Fugiu de ti a plácida ventura!
Eis-te sozinho, a suspirar descrido!
Não mais no mundo pérfido, iludido.
Serás de afetos vãos da criatura,
Brilha em teu céu uma esperança pura,
É Deus que atenta o ser desiludido!
Busca o conforto místico, que vem
Trazer-te a luz, que dimanou do bem,
E que fulgiu nos braços de uma cruz;
Despreza os bens efêmeros da terra,
Busca o tesouro que somente encerra
O amor perfeito que sonhou Jesus.
Almanach dos Municípios do Ceará. Fortaleza CE, 1908
DEZEMBRO
Trajes o manto alegre e resplandecente
Que tem a primavera auspiciosa
Em ti se ostenta e vive sorridente
Da estação a mais bela e perfumosa.
Mês de Natal! Ao ver-te quem imã não sente
Vibrar-lhe na alma a nota sonora!
Se tu vens nos lembrar, doce e nitente
De um Deus menino a graça luminosa?
Que de saudades íntimas despertas
Ao lermos do passado sempre abertas
As páginas tecidas e ouro e luz.
Guardas em ti o aroma das florzinhas
Trenós de amor, da voz das pastorinhas
Hinos do céu, honras a Jesus.
F. Clotilde. Revista A Estrella. Aracati -CE, 1910.
MINHA ESTRELLA (À Letícia Câmara)
Declina o dia... e a nuvem cor de rosa
Vão adornando as fímbrias do poente,
No espaço azul de leve transparência
Surge uma estrella tímida e radiante.
É a primeira. Eu fito-a carinhosa,
Enquanto vou pensando tristemente
Ao por do sol a hora transcendente
Em que a saudade angustiosa.
Em breve o céu se mostra marchetado
Das estrelas, e assim belo, constelado
Como é sublime e trás inspiração!
Eu procuro então ver a minha estrela
Que fitava entre todas as mais belas
Mas não posso encontrá-la na amplidão.
F. Clotilde. Almanack do Ceará. 1910:150.
A BANDEIRA
Vejo-te erguida, bela e tremulante
Tendo o azul deste céu resplandecente
E o verde esperançoso e potente
Que mostra a nossa flora sorridente.
Emblema augusto, símbolo potente
Banhada de sol vivo e brilhante
Relembra o poema amifulgante
A epopeia de feitos retumbante.
Amo-te assim, erecta, majestosa
Beijada pela brisa majestosa,
Querida, venerada dentre mil.
E como áureo, aos hinos da vitória
Ver-te sempre, brilhar cheia de glória,
Auriverde bandeira do Brasil!
F. Clotilde. Revista A Estrella. Aracati - CE, maio de 1910.
CÉU E MAR
O céu e o mar... Que esplêndidas grandezas
Um, bordado de estrelas refulgentes,
Outro, a nos ocultar nas profundezas
Pérolas finas... monstros repletos.
Erguendo o olhar contemplo essas belezas
Que se ostentam no azul, resplandescentes,
Atestando os primores, sempre ilesas
De uma força e bondade onipotentes.
Depois admiro o mar – esse infinito –
De vagas agitado e a sós cogito
Nos mistérios sem fim da imensidade.
Faz-se em meu ser a calma da bonança;
Fitando o céu azul tenho esperança,
Mas ah! Fitando o mar tenho saudade!
F. Clotilde. Revista A Estrella. Aracati CE, Março de 1910.
CEARÁ
Ave, Terra da Luz, Ó pátria estremecida,
Como exulta minha alma a proclamar-te a glória,
Teu nome refugastes inscreve-se na história,
És bela, sem rival, no mundo, engrandecida!
A dor te acrisolou a força enaltecida,
Conquistaste a lutar as palmas da vitória
Hoje és livre e de heróis a fúlgida memória
Jamais se apagará e a fama enobrecida.
O sol abrasa e doura os teus mares que anseiam
Em vagas que se irisam, que também se alteiam
A beijar com ardor teus alvos areiais.
Eia! Terra querida, sempre avante!
Deus te guie no futuro em ramagem brilhante
Nas delícias do bem, nos júbilos da paz!
F. Clotilde. Revista A Estrella. Aracati CE, Março 1912 In:
Mulheres do Brasil, vol. 1, 1971 246.
AVE STELLA
Como brilha no azul a estrela matutina
Trazendo doce luz, embelezando a terra,
Desde o verde que adorna a majestosa serra
A grama que atapeta o seio da campina.
Há quatro anos ti vi... E mesmo pequenina,
As dores que minha alma intimamente encerra
Dissipaste a sorrir, tão meiga e peregrina,
Mensagem de paz que as sombras me descerra.
Crescente, mais cresceu também o meu afeto,
És hoje o terno enlêvo, oh! Astro predileto,
Aurora de esperança em rude itinerário;
Sendo de minha filha e seu ideal brilhante,
Com transportes de amor na frase mais vibrante
Saúdo ainda mais uma vez o teu aniversário.
Revista A Estrella. Aracati CE, Março de 1912
ROSSICLER
Vibram no espaço trinos sonoros
De aves dispersas pelo azul afora;
Sente – se a luz da desejada aurora,
Rebentam flores dos hastes mimosos,
De ouro e rosa nuns tons esplendorosos.
Todo o horizonte em breve se colora
As sombras fogem, se respira agora
Ares mais puros, ares perfumosos.
Bem vinda sejas, luz alviçareira.
Que pareces sorrir linda e fagueira.
A pousar levemente sobre a flor;
Fazes cantar o ninho dentre as ramas,
Na terra inteira a vida assim derramas
Bênção de Deus, intérprete de amor!
F. Clotilde. Revista A Estrella. Aracati CE, Junho de 1915
NO CALVÁRIO
(Ao Revmo. Frei Marcelino de Milão)
Ergue-se a cruz no monte! As sombras lutulentas
De um eclipse de sol a terra toda envolvem;
Tudo sofre e se agita, as pedras se revolvem,
E mortuárias visões, das tumbas surgem lentas.
Aqui e ali se veem criaturas malicentas
Que mesmo na aflição os seus olhares volvem
Para o Mártir divino, a blasfemar cruentas
E outra há que a adorá-lo, enfim já se resolveram.
Um gorjeio não se ouvem... A turba emudecida
Em face da tragédia horrorosa, deicida.
Desvenda o mundo inteiro, o mais triste cenário.
Somente o amor de mãe, inquebrantável, forte,
Não vacila, e resiste ao suplício, a morte.
Brilhando como o céu, nas trevas do calvário.
Revista Estrella. Aracati CE, Março de 1915
TEU NOME
É bálsamo de amor que os lábios suaviza
É cântico do céu… encanta, atrai, consola,
Essência lirial que para Deus se evola,
É hino de esperança e as dores ameniza.
Maria! Ao repetir teu nome se matiza
De bençãos meu viver que a dor cruel.
Doce réstia de luz, confortadora esmola
Da graça e do perdão que as almas sublimiza.
Permite, oh! Mãe bondosa, oh! Virgem sacrossanta
De teu nome ideal que a melodia santa,
Vibrando dentro em mim as horas de amargura,
Seja a nota eteral, a nota harmoniosa
Que minha alma murmure, a te fitar ansiosa,
Estrela que nos guia à pátria da ventura!
Revista A Estrella . Aracati CE, Maio de 1916
A GARÇA
(Ao coração primaveril de Rubens Bráulio)
Ei-la triste a mirar as águas irrequietas,
Parecendo evocar em visões luminosas
O passado de amor, as estâncias diletas,
Outro céu bem distante, outras margens formosas!
Exilada talvez das paragens ditosas,
Onde outrora gozou de alegria discretas,
Quer as asas de neve, essas asas plumosas
Espalmar pelo azul e voar como as setas.
Mas coitada! Não pode atingir as alturas,
Pois alguém a privou de fruir as venturas
Do inocente viver, da feliz liberdade.
Como a garça, tristonha, eu me sinto finar,
E não posso fugir... e não posso voar
Tenho aqui de carpir a tristeza, a saudade.
A Estrella, ago/set de 1918 In: COLARES, v. 6:108
NO SOSSEGO DO CAMPO
(A alma radiosa de Dulce Nair)
Eis-me longe da praça! Em plena alacridade
Do campo aberto em flor, a sentir a poesia,
Como é lindo este azul e que bela irradia
A luz que vem do céu, que vem da imensidade!
Aqui ouço da linfa a grata suavidade.
Num murmúrio de leve, ouço ali a melodia
Da mimosa avesinha a cantar que anuncia
O doce rosicler... a vida... a claridade...
Não me vem á lembrança a ventura falaz,
A atração da cidade eu prefiro esta paz
Que me inspira e conforta e reanima na luta;
No sossego do campo é mais doce a ventura,
Mais nitente o luar, sopra a brisa mais pura,
Deus parece mais perto e melhor nos escuta!
Revista A Estrella. Aracati CE, Março de 1918
ÍRIS
(À graça sedutora de Irene Marinho)
Brilha de novo o azul... Que amenidade!
Foram-se as nuvens negras, procelosas,
Ostenta o íris as cores luminosas,
Cessa o terror, se espalha a alacridade.
Já não se escuta a voz da tempestade
O vento se acalmou, brisas cheirosas,
Vão soprando de manso, cariciosas,
Trazendo a paz do céu que nos invade.
Os corações se expandem docemente,
O espírito agitado ora descansa,
Aos sorrisos da luz clara fulgente!...
Íris do amor, estrella da bonança,
Temos, da vida na hora mais pungente,
O divino conforto da esperança.
F. Clotilde. A Estrella. (?)
NO CALVÁRIO
(Ao Revmo. Frei Marcelino de Mornico)
Ergue-se a cruz no monte! as sombras lutulentas
De um eclipse de sol a terra toda envolvem;
Tudo sofre e se agita, as pedras se revolvem,
E mortuárias visões, das tumbas surgem lentas.
Aqui e ali se veem criaturas malicentas
Que mesmo na aflição os seus olhares volvem
Para o Mártir divino, a blasfemar cruentas
E outra há que a adorá-lo, enfim já se resolveram.
Um gorjeio não se ouvem... A turba emudecida
Em face da tragédia horrorosa, deicida.
Desvenda o mundo inteiro, o mais triste cenário.
Somente o amor de mãe, inquebrantável, forte,
Não vacila, e resiste ao suplício, a morte.
Brilhando como o céu, nas trevas do calvário.
Revista Estrella. Aracati CE, Março de 1915
PRECE
Oh! Bendita Virgem, Mãe piedosa,
Nívea dos céus, Maria Imaculada,
Dentre as flores do céu mística rosa
Entre as mulheres, Santa proclamada!
Tua pureza Angélica e ilibada
Não teve manchas... Linda, fulgurosa
É corno de uma estrella, a luz radiosa
Que esgarça a treva aos beijos d’alvorada.
Conforta o nosso pranto, escuta a prece
Do triste, do exilado que padece,
Nesta vida cruel, desoladora;
Oh! Tu, Onipotente junto a Deus,
Desprende sobre nós do azul dos céus
Tua bênção de Mãe consoladora.
Revista A Estrella. Aracati CE, Abril de 1915
MAIO (Ao A. Ferreira)
Eis que Maio chegou! Mas triste e desolado,
Sem primores de rosas e graças de boninas,
Já não ostenta o verde alegre das campinas,
Semelha um pobre rei de galas despojado!
Crestou do vento ardente, a louçania aos prados
A terra calcinou-se, e no val, nas colinas
Já não tem o dulçor da linfa cristalina
Domina a solidão nos eternos descampados
Rosas morrendo ao sol! Até sobre os altares
Da virgem sacrossanta, sela não vem aos pares
Exalar o seu perfume em grata suavidade.
Pobre Terra da Luz! Não tens mais primavera,
E, em vez de flores mil, que tinhas noutras eras,
Envolve-te a tristeza outonal da saudade!
Revista A Estrella. Aracarti CE, Maio de 1915
TEU NOME
É bálsamo de amor que os lábios suaviza
É cântico do céu... encanta, atrai, consola,
Essência lirial que para Deus se evola,
É hino de esperança e as dores ameniza.
Maria! Ao repetir teu nome se matiza
De bênçãos meu viver que a dor cruel.
Doce réstia de luz, confortadora esmola
Da graça e do perdão que as almas sublimina.
Permite, oh! Mãe bondosa, oh! Virgem sacrossanta
De teu nome ideal que a melodia santa,
Vibrando dentro em mim as horas de amargura,
Seja a nota eternal, a nota harmoniosa
Que minha alma murmure, a te fitar ansiosa,
Estrela que nos guia à pátria da ventura!
(F. Clotilde. Revista A Estrella, Julho de 1915).
PARA O IGNOTO
(Ao ilustre Cel. Probo Câmara)
Eles têm que partir!... A caravana triste
Despede-se a chorar de doce abrigo,
No campo nem sequer uma florzinha existe,
O flagelo varreu todo o esplendor antigo!
A casinha, esta sim, tão alva inda persiste,
Inda guarda o verdor o juazeiro amigo;
Mas, lá longe, na estrada, o horror, o desabrigo,
A saudade cruel a que ninguém resiste!
E eles têm de partir! O rossicler do dia
Já brilhou no horizonte em clarão de agonia,
A lembrar-lhe o exílio em um país remoto.
Olham mais uma vez a casa... o céu azul
E se vai chorar o triste bando exul,
Em procura do Além, em busca do Ignoto.
Revista A Estrella. Aracati CE, ago/set de 1915
TEU NOME
É bálsamo de amor que os lábios suaviza
É cântico do céu... encanta, atrai, consola,
Essência lirial que para Deus se evola,
É hino de esperança e as dores ameniza.
Maria! Ao repetir teu nome se matiza
De bênçãos meu viver que a dor cruel.
Doce réstia de luz, confortadora esmola
Da graça e do perdão que as almas sublimiza.
Permite, oh! Mãe bondosa, oh! Virgem sacrossanta
De teu nome ideal que a melodia santa,
Vibrando dentro em mim as horas de amargura,
Seja a nota eteral, a nota harmoniosa
Que minha alma murmure, a te fitar ansiosa,
Estrela que nos guia à pátria da ventura!
Revista A Estrella,. Aracati CE, Julho de 1915.
VÉSPER
A noite faz-se bela e iluminada.
Vésper brilhante, a confidente amiga
Surgiu no azul, estrela abençoada
Cujo fulgor os corações abriga!
E, da tela infinita a luz dourada,
Essa luz que consola e que mitiga
A saudade, o pesar, a dor antiga
No eflúvio do céu carícia amada.
Desperta dentro em mim viva lembrança
De ventura que foge e não se alcança,
Por que no mundo é tudo falso e vão?
E enquanto pelo céu Vésper fulgura,
Sinto envolver-me a treva da amargura
A noite sem estrela e sem clarão.
Revista A Estrella. Aracati CE, Dez de 1915.
A UM POETA
Detém a inspiração e o estro ousado,
Passa altivo no mundo o indiferente;
Que te importa o sofrer mais apurado
A beleza, a ilusão, o sonho ardente?
Tudo é vão, tudo passa, tudo mente:
Do teu canto o vibrar apaixonado
Disfarça muita vez um tom magoado
E se inspira na dor, na dor somente.
Sofra embora tua alma em desatino
De não ser entendida, atroz destino
Canta e segue a penosa trajetória.
Dilacerem-te os pés rudes abrolhos,
Canta a luz da alvorada, a cor de uns olhos,
O mar, a imensidade, o amor, a glória.
Revista A Estrella. Aracati CE, Nov. de 1915
MISTÉRIOS
Há um secreto encanto, um mistério insondável
No seio da floresta e o seu recesso esconde
Tanta cousa ideal, sob a rendada fronde,
Na beleza sem par, selvática, admirável!
A ave que desata a voz límpida, inefável
A voejar pelo azul exprime de onde em onde
Um idílio de amor a se espargir, num eflúvio adorável.
E o aroma a se espargir, num eflúvio adorável.
Nos esponsais da flor, oh! que ternura existe!
Quem pode compreender a força que persiste,
A vibrar no mistério, a palpitar no arcano?
Quem pode do porvir traçar o itinerário,
Investigar quem ousa o pensamento vario
É o supremo mistério – o coração humano?
Revista A Estrella. Aracati CE, Julho de 1915.
HORA FESTIVA
Brilha o sol no infinito! A natureza em festa
Mostra um raro primor, por toda parte exulta
A flor, a estremecer no galho em que se oculta,
E o pássaro, a cantar, doce prazer atesta.
Nem um traço sombrio no horizonte resta,
Tudo azul a sorrir... pela leveza inculta,
Brinca a luz, que entre as ramas trémulas se esfesta,
Enquanto cresce o dia, enquanto o dia avulta.
Perfumes no ambiente... aves pipilam... cantam
A linfa de cristal cujo murmúrio encanta
O espírito do poeta aureolado em dor.
Bendita seja tu, oh! Grande natureza,
Fonte eterna de paz, de graça, de beleza,
Que infiltras dentro em nós o bem, a luz, o amor!
Revista A Estrella. Aracati CE, Janeiro de 1916.
ÊXTASES
(Ao espírito radiante de Carlyle Martins)
Com as asas da Fé transporto-me às alturas
E sondo a profundidade enorme dos mistérios,
Vejo a estrela brilhar nos pássaros etéreos
E me enlevo a fitar as lúcidas planuras.
Ai! Que clarões divulgo!... Nesses mundos aéreos
Não se sente de leve as trevas e amarguras,
Deste viver terreno, entre ilusões e agruras
Quem me dera fugir aos espaços sidéreoz!
Eu te bendigo, oh! Fé que me levas assim,
Bem longe das misérias... na amplidão sem fim
Onde reina a beleza esplêndida dos céus;
Feliz de quem se sente assim arrebatado
Num êxtase de amor, ao trono constelado
Bem perto do infinito e bem junto de Deus!
Revista A Estrella. Aracati CE, Julho de 1916.
A BANDEIRA
Bandeira do Brasil! Assim galhardamente,
Eu te vejo brilhar – emblema sugestivo –
De suprema grandeza e majestade ingente!
Erguida nesse dia ao rossicler festivo!
Tens o encanto do azul e o sorriso expressivo
Das campinas em flor tens a graça inocente;
E a luz primaveril do céu inspirativo
Onde esplende o Cruzeiro, a nos guiar a mente.
Hás de sempre vencer, nos certames da glória,
Não precisas de guerra, em láureas de vitória,
Tens conquistas de amor e da paz os troféus;
Entre as demais nações serás sempre a primeira,
Portentoso Brasil, cuja excelsa bandeira
Tem tesouros da terra e as estrelas dos céus.
F. Clotilde. Revista A Estrella, ago/set de 1916
.À PAZ
(Ao grande espírito do Dr. Eduardo Dias)
Estende
sobre nós as asas benfazejas,
Afasta
para longe a sanguinária guerra;
És astro
protetor, a iluminar a terra,
És anjo
divinal nas hórridas pelejas.
Teu
sorriso trás bonança e, qual íris, decerra
O negror
da procela... abençoada sejas;
Oh! Paz
consoladora o nosso bem almejas,
Estrela
vesperal que doce luz encerra.
Vem os
homens unir, vem espalhar o amor,
Tem pena
do sofrer das mães em ansiedade,
De ternos
corações mova-te a inerente dor;
Temos
sede de ti, lenitiva a orfandade,
Com eflúvios
do céu, num gesto animador,
Lembra o santo dever, as leis da caridade!
F. Clotilde.Revista A Estrella, Aracati.CE, Março de 1918
A PALMEIRA
(À alma nívea de Almerinda Rodrigues)
Sobre o vasto areal, na extensão do deserto,
Erguia senhoril à luz, ao sol, ao vento.
A palmeira sorri-se ao viajor sedento
_Oásis verdejantes _ a se mostrar bem perto.
Em miragem tão bela… O seu leque entreaberto
Parece-lhe indicar, no rumo poeirento,
Das águas o frescor, a sombra, o aprazamento,
O descanso sonhado… o conforto mais certo.
Palmeira abençoada! Ao coração que oprime
A fadiga cruel, no itinerário rude,
Esperança e consolo o teu perfil exprime.
Quantas vezes também o prazer nos ilude
Mas que a vista do céu a nossa alma reanime
Seguiremos o bem, o dever, a virtude.
F. Clotilde. A Revista A Estrella Jul. 1918
A GARÇA
(Ao coração primaveril de Rubens Bráulio)
Ei-la triste a mirar as águas irrequietas,
Parecendo evocar em visões luminosas
O passado de amor, as estâncias diletas,
Outro céu bem distante, outras margens formosas!
Exilada talvez das paragens ditosas,
Onde outrora gozou de alegria discretas,
Quer as asas de neve, essas asas plumosas
Espalmar pelo azul e voar como as setas.
Mas coitada! Não pode atingir as alturas,
Pois alguém a privou de fruir as venturas
Do inocente viver, da feliz liberdade.
Como a garça, tristonha, eu me sinto finar,
E não posso fugir... e não posso voar
Tenho aqui de carpir a tristeza, a saudade.
A Estrella. Aracati CE, ago/set. de 1918 In Colares, vol 6, p. 108.
O CAMINHO DA GLÓRIA
(Ao coração patriota de Abgail Sampaio)
Sempre a olhar a bandeira erguida e tremulante,
Visão sublime e pura, imagem consagrada,
E sentindo o amor, a chama acrisolada,
Esquece a noiva o lar e a família distante.
Que lhe importa morrer? Num ardor incessante
Quer ver enaltecida a flâmula sagrada
E o sangue a referver, vigoroso, estuante,
Que corra vivo e rubro, em prol da terra amada,
Ouve o som do canhão e ainda mais se avigora;
Parece circundando em fulgores de aurora,
Na luz de um novo sol que anuncia vitória;
E, ao cair sobre a arena ainda fita a bandeira
Essa estrela que brilha, a mostrar altaneira,
Sobre as ruínas da Pátria, o caminho da glória!
Revista A Estrella, Junho de 1918 In: Colares 106.
À PAZ
(Ao grande espírito do Dr. Eduardo Dias)
Estende sobre nós as asas benfazejas,
Afasta para longe a sanguinária guerra;
És astro protetor, a iluminar a terra,
És anjo divinal nas hórridas pelejas.
Teu sorriso trás bonança e, qual íris, decerra
O negror da procela... abençoada sejas;
Oh! Paz consoladora o nosso bem almejas,
Estrela vesperal que doce luz encerra.
Vem os homens unir, vem espalhar o amor,
Tem pena do sofrer das mães em ansiedade,
De ternos corações mova-te a ingrente dor;
Temos sede de ti, lenitiva a orfandade,
Com eflúvios do céu, num gesto animador,
Lembra o santo dever, as leis da caridade!
F. Clotilde Revista A Estrella, fev. de 1918
.
A PALMEIRA
(À Alma nívea de Almerinda Rodrigues)
Sobre o vasto areal, na extensão do deserto,
Erguia senhoril à luz, ao sol, ao vento.
A palmeira sorri-se ao viajor sedento
_Oásis verdejantes _ a se mostrar bem perto.
Em miragem tão bela... O seu leque entreaberto
Parece-lhe indicar, no rumo poeirento,
Das águas o frescor, a sombra, o aprazamento,
O descanso sonhado... o conforto mais certo.
Palmeira abençoada! Ao coração que oprime
A fadiga cruel, no itinerário rude,
Esperança e consolo o teu perfil exprime.
Quantas vezes também o prazer nos ilude
Mas que a vista do céu a noss’alma reanime
Seguiremos o bem, o dever, a virtude.
Revista A Estrella, jul de 1918 In: Colares p. 107
ANDORINHA
(À dileta amiguinha Carmem Virgínia)
Passando do inverno a pérfida inclemência...
Andorinha ligeira, vai buscando
Outro clima mais puro, ameno e brando,
Outro céu de mais doce transparência.
Gozas da luz a tépida influência,
Reunindo-te ao alegre bando,
Que recorta este azul de quando em quando,
Desejando mais plácida existência
Podes fugir, voar com as asas leves,
Expandir-te ao calor do sol
De bendito verão, delícias breves.
Como eu te invejo: Enquanto vais seguindo,
Sofro a tortura do mais rude inverno
E o azul me esconde o seu sorris, fruindo
Revista A Estrella, Julho de 1920 In: Colares, 111.
O INVERNO
(Para a dileta priminha Margarida Arruda)
Em vez do belo azul quisera agora,
Fitar por esses céus nuvens sombrias
Prenunciando as fartas alegrias
Da chuva que nos salva e revigora.
Quisera ver sorrir no campo a flora
Revestida de galas e louçanias,
E, vibrante, escutar as harmonias
Da passarada, pelo espaço afora...
Que venha o inverno dar conforto e abrigo
Aos povos que, a sofrer amargamente,
Deixaram de seu lar o pouso amigo...
A fome causa horror... A sede aterra;
Mandai-nos oh! Senhor, bondosamente
Vossas bênçãos de Pai sobre a terra!
Revista A Estrella. Janeiro de 1920, Colares, 115.
D. LUIS ORLEANS
(Ao coração alanceado de Izabel, a Redentora)
É vivo o teu lugar, a cintilar na história,
Descendente de reis, o teu manto altaneiro
Há de sempre guardá-lo, aureolado de glória,
O grande coração do povo brasileiro
Morreste sem fitar o esplendente cruzeiro
Que nos guia e conduz em bela trajetória,
Mas soubeste exaltar no país estrangeiro,
Por teu gênio imortal, tua augusta memória.
Ninguém pode privar que, num extro exaltado,
Em surtros magistrais, condor do pensamento,
Pairasses neste azul sereno e constelado.
Expulsou-te o Brasil; mas, embora proscrito,
O mundo iluminou o teu régio talento
E um trono conquistaste esplêndido infinito.
Revista A Estrella, Abril de 1920 – Colares 115.
VISÕES DE OUTRORA
(Ao coração saudoso de Alice Holanda)
Que formosa ilusão! Vejo presente
O caminho feliz e perfumado,
Onde outrora, risonho e docemente,
Meu viver deslizou-se abençoado.
Como tudo mudou! Mas corrente
Que espalhava dos céus o trecho amado
Continua a gemer triste e dolente,
Relembrando bem vivo o meu passado
Era aqui... bem o sei neste recinto
Que floriam as rosas e os jasmins
Desatava o botão nas alvoradas;
E parece, meu Deus, que vejo e sinto,
Através das imagens reavivadas,
O olhar de minha mãe pousado em mim!
Revista A Estrella, Fev de 1920 – Colares 116.
LUZ E SOMBRA
(À meiguice incomparável de Marieta Teixeira)
Por toda parte a luz, a placidez, o amor,
A graça festival do campo e do perfume,
A beleza sutil que traduz e resume
A ventura, a inocência, a primavera em flor....
É mais sereno o azul... Das águas o frescor
Tem um doce carinho, e misterioso nome,
De terra a repelir os rancores e o ciúme,
Imprime à natureza idêntico fulgor.
Será crível, eu Deus, perante este cenário?
Tão belo e encantador, tão puro e deslumbrante...
Que eu tenha o coração preso o triste fadário?
Que eu tenha o coração envolto em negros véus,
Sendo deste concerto a nota dissonante
A nuvem que perturba a limpidez do céu?!
Revista A Estrella, Aracati CE, Março de 1920.
VISÃO CAMPESINA
(À bondosa dona Clara de Sá Leitão)
Que mimosa
casinha emoldurada
De
baunilhas em flor! Um doce ninho...
Murmureja um regato, ali pertinho,
Ri-se a campina verde e perfumada.
Não lhe falta o cantar de passarinho,
Numa orquestra de amor bem afinada,
Que me faz esquecer o torvelinho
Dessa vida de praça emocionada.
O céu sereno e azul... Fagueira a brisa,
Aqui tudo me enleva e, alegre sinto,
Que o tempo mansamente se desliza.
Uma casinha só! Qualquer cidade
Por ela não trocara... Em seu recinto
Gozei do bem, a paz, a suavidade!
Revista A Estrella. Aracati CE Junho de 1920
GRAÇA INFANTIL
(À candidez atraente de Maria Dolores Pontes)
Se não crescesses nunca; se ficasses
Sempre assim pequenina e descuidada,
O riso a te brincar nas níveas faces,
A inocência a envolver-te fulgurosa...
Não sentirás os gozos tão fugazes
Que o destino nos guardai, assim mimosa,
Passaria a vida mais ditosa,
Colhendo rosa, onde tu passasses.
Mas quem pena cresceres, louro anjinho!
Por isso eu te afagando bem de perto,
Sinto ferir-me o dardo de um espinho;
Brinca, aproveita a quadra aurifulgente.
Enquanto eu cismo do futuro incerto,
Goza as doçuras do feliz presente!
F. Clotilde. Revista A Estrella. Aracati CE, Setembro 1920.
SETE DE SETEMBRO
(Ao ilustre Dr. Boanerges Facó
Esplende o sol... O Ypiranga desliza
E nele se reflete o azul sereno,
Lindo... A desdobrar-se ameno,
De luz e beleza se matiza.
Independência ou Morte! Concretiza.
O brado augusto, vivo como um treno,
O gesto nobre, o decantado aceno,
Do Monarca que ali se sublima...
E o grito vibra além... Há manifestas
Expressões as mais justas,
Um delírio de usos e festas.
E a grande terra, erguida na História,
Aureolada de estrelas refulgentes,
Sente envolvê-la a sagração da glória
Revista A Estrella. Aracati CE Set. 1921
MÃE DOLOROSA
Depõe um beijo louco e delirante
Na fronte inerte e pálida da filha
Q’ acaba de morrer naquele instante
No céu do seu amor, ah! Já não brilha
A loura estrella fúlgida e radiosa
Que aclarava da vida a escura trilha.
A pequenina boca cor de rosa
Que desfolhava rios de inocência
Está agora gelada e silenciosa!
De puro e doce olhar a transparência
A morte perturbou ímpia e cruel
Ao ceifar em botão essa existência.
Os beijos mais suaves do que o mel
Molha a materna boca sequiosa
Tem dos saibos da morte o acro fel.
O berço está deserto! A boliçosa
E tímida pombinha se evolou
Em busca de uma pátria mais formosa.
A dor enorme o seio te rasgou
Oh! Mãe aflita viste-a pequenina
Morrer como uma flor que se fanou
Não chores! Como a estrela vespertina,
Que guia no deserto ao viandante
A noite de tua alma, ela ilumina.
A vida é uma dor lenta, incessante,
Que nos fere do berço à sepultura
O prazer se esvaece num instante.
Feliz o que na idade calma e pura
Da infância, voa as plagas eternais
Sem um golpe sofrer da desventura.
Feliz o que adormece entre os rosais,
O que morre da vida n’alvorada.
Sua alma como a pomba, imaculada
Busca o ninho no céu! Não chores mais!
A Quinzena. Fortaleza CE, 04 de setembro de 1887
TREVAS
(À Memória de Cel. João Câmara)
Fez-se a treva neste lar
Em que esplendia outrora
Qual doce clarão de amora,
Uma ventura sem par.
É que a esposa e os filhinhos
Sem a luz dos seus amores
Da vida pelos caminhos
Divisam tristes negrores.
Porém a sua lembrança
Em meio da saudade
Refulge com a esperança
No anoitecer da saudade.
Almanach do Ceará, 1908 p. 170.
Abaixo, alguns recortes de Jornais/Revistas

O LIBERTADOR 25 Março 1887
Almanaque Literário da Bahia
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PEDRO II 1887
FRANCISCA CLOTILDE
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POEMAS
O CEARENSE 1877
GAZETA DO NORTE 06.08.1882
O CEARENSE. Fortaleza, 29.09.1883
LIBERTADOR 1883
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Libertador. Fortaleza, 07
de Abril de 1887 http://memoria.bn.br/docreader/229865/3282
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