terça-feira, 14 de setembro de 2021

FRANCISCA CLOTILDE APOLOGIA A VICTOR HUGO

 

FRANCISCA CLOTILDE

Diante do vulto eminente desse grande homem, cujo nome glorioso ocupa uma das páginas mais brilhantes da história, deve-se prosternar na homenagem de um culto, não só a sua pátria como o mundo inteiro.

Victor Hugo – o Gênio que assombrou o século, a águia altaneira cujos vôos se elevaram aos paramos da imortalidade, o grande poeta, o inimitável escritor, o gigante da literatura, tem direito a mais perfeita e esplêndida apoteose.

Neste momento vou recolher algumas das notas que hão de sempre ressoar repassadas de saudade e admiração pelos âmbitos da França, para com elas formar, senão um panegírico, pelo menos um concerto de desentoados louvores ao adorável velhinho que tanto elevou a mulher, idealizando as mais belas criações femininas, e iluminando-as com as irradiações de seu prodigioso cérebro que se banhava num oceano de luz e inspiração.

Victor Hugo tem direito a todos os lauréis que merecem o talento e a verdadeira erudição. Ante ele devem curvar-se todas as inteligências, dobrarem-se todas as frontes.

Foi maior do que um monarca, porque teve a única realeza que domina e subjuga os espíritos.

Na sua fronte brilhava a coroa imarcescível dos predestinados da glória e da imortalidade.

Sobre o seu túmulo caíram as lágrimas de todos que lhe conheciam a grandeza do gênio e a beleza do coração, transformadas em um chuveiro de pérolas para mais lhe aformosearem o diadema imortal.

Ninguém viu no asilo mortuário onde ele repousava a escuridão pavorosa do sepulcro. Havia antes o reverbero de uma luz celeste que se não poderá de todo apagar, e sentir-se-lhe o espírito esvoaçar sobre os restos mortais da matéria.

A morte não fez senão abrir-lhe a senda luminosa que para os grandes homens vai do sarcófago ao Panteon, e o seu imenso esplendor iluminará não só a França, como o mundo inteiro.

O peso dos anos, o frio do inverno da vida que lhe roubara o viço e a força da mocidade, adormecendo-lhe as paixões e esfriando-lhe os ardores juvenis não puderam diminuir um só grão a intensidade do seu pujante talento.

Os fios de cabelos encanecidos pela idade acenderam-se muitas vezes nas labaredas da inspiração, e do mesmo modo que o moço bebera os segredos da poesia na taça do entusiasmo da juventude, pode o velho enlevado nos cabelos de ouro da neta idolatrada e no amor da ciência que tanto engrandecera e honrara, fantasiar o que de mais idealmente belo pode haver na mente humana, realizando esplêndidas concepções, que semelhantes aos raios de sol prestes a ocultar-se no poente aqueceram ainda as últimas flores que nasceram para se desfolharem sobre o seu túmulo.

A poesia, o romance e o teatro enriqueceram-se com as jóias do cofre precioso de sua inteligência.

Seus trabalhos literários são perfeitas maravilhas, e ninguém poderá contestar-lhes o subido valor nem lhe empanar o fulgurante brilho.

É impossível fazer-se uma análise completa dessas preciosidades literárias.

Seria o mesmo que tentar contra todas as estrelas ou apanhar todas as pérolas do mar.

Basta uma de suas obras – Os Miseráveis – para ostentar a onipotência de seu gênio.

Ao lê-la, a mente devassa mundos desconhecidos, o coração palpita, a alma sonha e os versos estremecem sob as mais doces e agradáveis sensações.

Por vezes a frase é vibrante, vigorosa e produz o efeito de um choque elétrico, às vezes é meiga, suave, deliciosa como o sabor do beijo maternal; ora sobe em espirais de poesias aos prazeres do céu, ora desce no redemoinho das paixões até os horrores do inferno.

A mulher ocupa sempre um lugar proeminente em todas as suas obras, e quer se mostre pura ou criminosa deixa os rastros luminosos de uma alma susceptível de aperfeiçoar-se e engrandecer-se pelo amor.

Em – Notre Dame de Paris – palpita uma de suas melhores criações femininas – A Esmeralda.

Em – Han d’Island – desenrolam-se os horrores do crime, nascido da sede de vingança paterna. É um homem que se transforma em fera para no delírio de uma febre infernal beber no crânio do filho assassinado o sangue de uma raça inteira.

Enfim, em todas as obras de Victor Hugo vêem os lampejos de um gênio que deslumbra. É um gigante que domina com a força colossal da inteligência, com o poder irresistível da imaginação.

A França deve vangloriar-se de ter sido a pátria de tão grande homem.

O enorme prestígio do seu talento eleva-a e engrandece-a, e nunca  filho mais ilustre nem talento mais notável deu-lhe tanta glória e derramou tanta luz sobre o seu nome.

Victor Hugo há de fulgurar sempre como estrela de primeira grandeza no céu das letras, ou antes, como o sol que brilha com luz própria aclarando os astros mais obscuros da terra.

O mundo ouvirá extasiado a epopeia que traduzem as obras desse grande homem que imprimiu nas mais arrebatadoras criações de um beijo de poeta e artista, enchendo de harmonia e glória o Século XIX.

Francisca Clotilde. A Quinzena. Fortaleza - Ceará, 31 de maio de 1887.


Anamélia Custódio Mota

Tauá - CE, 14 de setembro de 2021 

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