sábado, 2 de outubro de 2021

FRANCISCA CLOTILDE A EDUCAÇÃO MORAL DAS CRIANÇAS NA ESCOLA

 

FRANCISCA CLOTILDE


Francisca Clotilde nasceu em Tauá, CE aos 19 de Outubro de 1862. Faleceu em Aracati aos 08 de dezembro de 1935.

Fez as primeiras letras com a professora Ursulina Furtado na Vila de Baturité. Cedo demonstrou aptidões poéticas, antes de completar 15 anos teve poema publicado em tradicional Jornal da Capital da Província. Diplomou-se no Colégio Imaculada Conceição em Fortaleza.

Aos 20 anos tornou-se professora interina de escola anexa à Escola Normal. Aos 22 anos foi aprovada em concurso para referida escola (1884). 

Membro da Associação da Senhoras Libertadoras, Órgão do Movimento Abolicionista. Foi também participante do Centro Literário. Há quem diga que sua produção literária em jornais e revistas da época dariam volumes.

Criou em Fortaleza uma Escola Particular, denominada Escola Santa Clotilde (1891). Morou em Acarape, em Baturité e por último em Aracati (1908-1935), nessa última cidade fundou o Externato Santa Clotilde.

Autora de: Livro de Contos (1897), de Noções de Arithmetica (1889), também de um romance, A Divorciada (1902).

Pois bem, aqui trazemos a Crônica A EDUCAÇÃO MORAL DAS CRIANÇAS NA ESCOLA 

1.        A educação moral é a parte mais importante da missão da escola, porque forma o caráter, purifica os costumes, desenvolve os bons impulsos do coração e tem sobre a educação física e a intelectual uma incontestável superioridade.


2.          Quando a criança passa da família para a escola, trocando os inocentes brinquedos do lar pelas lides do estudo, é mister que a pessoa que vai desempenhar junto a ela as funções de preceptor guie com desvelo e sabedoria os seus primeiros passos através daquele mundo que lhe é inteiramente desconhecido.


3.     Até ali a tenra criancinha só conheceu a doçura das carícias maternas; mas ao completar 7 anos e às vezes mais cedo é arrancada à ledice de seus gentis folguedos e passa da tutela afetuosa de sua mãe para a do professor – uma entidade que ella não conhece e que por essa razão deve recear e temer.


4.      Desde que o primeiro sorriso desponta nos lábios da criança deve-se principiar a educá-la, disse-o um ilustrado sacerdote, e é à mãe que cumpre encarregar-se da primeira educação do filho e infiltrar-lhe no coração o gérmen do bem e as notas principiais do caráter.


5.       Dizem que Scott recebeu a primeira inclinação para a poesia por escutar as canções de sua mãe. Nas frases do notável moralista Smiles, a infância é como um espelho que no decurso da vida reflete as imagens que primeiro lhe foram apresentadas.


6.      O professor é encarregado de continuar a desenvolver os ensaios de educação feitos pelas crianças no lar, e no desempenho de tal cargo terá muitas vezes que lutar contra pequenos defeitos nascidos na exagerada indulgência de algumas mães, que deixam os filhos seguirem os impulsos da índole e os estouvamentos próprios da idade, sem refletirem nos graves inconvenientes que daí podem resultar.


7.      Se não possuir em alto grau a paciência e a constância, o professor desanimará ante esses obstáculos; mas escudado por essas duas grandes virtudes que lhes devam ornamentar a alma e fortalecê-lo nos momentos de desânimo, chegará a ter bom êxito e conseguirá afastar do coração dos seus pequenos discípulos os maus sentimentos que como plantas daninhas queriam ali deixar raízes.


8.      A época mais importante da vida, como disse Richter é a da infância, que quando a criança começa a modelar-se por aqueles com quem convive, por isso a influencia do primeiro professor excederá sempre a dos outros; portanto os pais devem ser cautelosos na escolha daquele que tem de continuar logo depois deles na educação moral e intelectual de seus filhos e nunca entregá-los a uma pessoa destituída de virtudes e incapaz de dar-lhes bons e salutares exemplos.


9.       Hoje que a escola já não é o pesadelo horroroso que assaltava o sono infantil, nem a prisão sombria onde se encerravam longas horas as louras criancinhas, hoje que a palmatória e os castigos vis e estúpidos foram abolidos como indignos da civilização e do adiamento de nossa sociedade, o menino considera o preceptor como um amigo a quem deve amar e venerar. É, pois, facílimo a este se aproveitar da influência de que goza entre aqueles que educa, para colher ótimos e profícuos resultados na sua nobre missão.


10.     A infância é meiga, propensa à ternura, sincera nas afeições, ávida de carinho. Habituada a ouvir desde o berço a voz melífua que a embalava com ternas canções e a receber suavíssimos beijos dessa providência humana que se chama mãe e que a cerca de desvelos e cuidados por toda parte, deve continuar a ver no preceptor aquele vulto simpático a quem ela se inclinava espontaneamente e com quem se entretinha horas inteiras expandindo seus graciosos pensamentos e satisfazendo sua inocente curiosidade.


11.       O professor deve empregar todos os meios para fazer-se amar pelas crianças. Assim tudo conseguirá delas, porque ninguém resiste ao amor; e uma vez certo da afeição de seus discípulos poderá aperfeiçoar-lhes os bons impulsos e tornar-lhes fáceis os deveres da escola.


12.         A religião e a moral - esses dois elementos indispensáveis para a formação do caráter podem ser infiltrados nos corações infantis da maneira mais simples.


13.          Um passeio à beira-mar, uma manhã de estio, uma flor que desabrocha, uma ave que canta, uma abelha que fabrica mel, uma borboleta que esvoaça podem trazer à criança a ideia do autor dessas cousas que tanto enlevam e arrebatam sua imaginação pueril, e o professor terá ensejo de auxiliar-lhe o espírito de observação, infundindo-lhe ao mesmo tempo o amor às ciências naturais.


14.         Quanto a instrução moral deve ser dada por meio de narrações singelas, historietas ao alcance das inteligências infantis, exercícios orais que deverão ser repetidos para ficarem bem impressos no espírito das crianças, para as quais o melhor compêndio de moral é o exemplo.


15.    Uma palavra, uma pergunta, qual quer incidente da vida escolar pode fornecer ao professor variados temas para essas lições.


16.       O amor dos pais, a união fraterna, o patriotismo, o respeito a velhice, a caridade, a benevolência, o amor à verdade e os demais deveres do aluno para consigo e para com os outros ser-lhe-hão cada vez mais gratos desde que os compreenda e se habitue a cumpri-los, avigorando os bons sentimentos pelo exemplo e conselhos que receber.


17.        O professor deve esforçar-se, sobretudo, para acostumar seus discípulos a fazerem o bem pelo bem e sem o interesse de prêmios que, longe de serem um estímulo, trazem sempre como funestas consequências a inveja, o orgulho e o ressentimento.


18.       O menino deve habituar-se a obedecer, a estudar, a ser afável e condescendente com os seus condiscípulos, a enxugar as lágrimas alheias, a repartir o pão com o mendigo, porque são esses os seus deveres e achará na sanção da consciência e melhor recompensa dos esforços que empregou para vencer a má índole, a preguiça, o egoísmo etc.

19.       Enfim, se o professor possuir qualidades morais elevadas e se à vocação juntar uma instrução completa e uma educação aprimorada concorrerá honrosamente para a formação do caráter de seus alunos e contribuirá para o desenvolvimento e progresso de sua pátria realizando a frase do grande Pestalozzi: “O futuro das nações está nas escolas”.


A Quinzena. Fortaleza CE, 15 de Março de 1887 - Fac-Símile pp 21 e 22 - Biblioteca da Academia Cearense de Letras Fortaleza CE.



quarta-feira, 15 de setembro de 2021

FRANCISCA CLOTILDE: ALGUNS CONTOS

 

FRANCISCA CLOTILDE


Francisca Clotilde nasceu em Tauá, CE aos 19 de Outubro de 1862. Faleceu em Aracati aos 08 de dezembro de 1935.

Fez as primeiras letras com a professora Ursulina Furtado na Vila de Baturité. Cedo demonstrou aptidões poéticas, antes de completar 15 anos teve poema publicado em tradicional Jornal da Capital da Província. Diplomou-se no Colégio Imaculada Conceição em Fortaleza.

Aos 20 anos tornou-se professora interina de escola anexa à Escola Normal. Aos 22 anos foi aprovada em concurso para referida escola (1884). 

Membro da Associação da Senhoras Libertadoras, Órgão do Movimento Abolicionista. Foi também participante do Centro Literário. Há quem diga que sua produção literária em jornais e revistas da época dariam volumes.

Criou em Fortaleza uma Escola Particular, denominada Escola Santa Clotilde (1891). Morou em Acarape, em Baturité e por último em Aracati (1908-1935), nessa última cidade fundou o Externato Santa Clotilde.

Autora de: "Noções de Arithmetica" (1889); Coleção de Contos (1897), também de um romance, A Divorciada (1902).

Pois bem, aqui trazemos alguns CONTOS de sua autoria esparsos em Jornais e Revistas. 

Através do conto, Francisca Clotilde faz os primeiros passos, apercebendo e aprimorando-se para o cultivo de outro gênero, de maior amplitude e complexidade: o romance. (Dolor Barreira, História da Literatura no Ceará)


A ENJEITADA

F. CLOTILDE

A gentil criancinha viu a luz do dia em uma estreita e úmida mansarda. Filha do amor e do crime nascia quase ao desamparo, e apenas os beijos maternos festejaram-lhe a entrada no mundo.

A mãe seduzida por um homem sem coração necessitava encobrir a falta para continuar a viver entre a família, e tinha de abandoná-la à caridade publica algumas horas depois de nascida.

Era tão franzina! Precisava tanto de cuidados maternos; porém a sociedade severa e inexorável a triste sorte da enjeitada.

São assim as leis humanas.

A moça inexperiente e sem o escudo de uma boa e sólida educação caíra aos amorosos assaltos de mancebo sedutor, e tornara-se mãe. Era, portanto, indispensável ocultar o fruto de uma culpa que o mundo não perdoa, e entre o amor de mãe e o terror do anátema que lhe cairia na fronte, a pobre moça hesitava.

Abandonar a filha, uma criaturinha frágil, flor mal desabrochada que a primeira carícia de vento pode molestar, deixá-la à porta de algum rico compassivo, privá-la dos seus beijos, não vê-la talvez mais!

Trouxera-a nove meses no seio, nutrindo-a com o seu sangue, com a sua própria vida.

Às ocultas fizera um enxolvazinho para que o seu anjo tivesse uma camisinha de rendas e uma touca enfeitada, ouvira-lhe o primeiro vagido, beijara-a com toda efusão de seu amor, e ia separar-se dela!

O seu coração de mãe revoltava-se.

Havia de conservá-la, embora a família a repelisse.

Trabalharia para sustentá-la, sofreria junto a si. Já lhe queria tanto!

Mas a vergonha e o opróbrio que a esperava?

Tratava-se naquele espírito abatido pela dor física numa luta horrível. Ficaria irremediavelmente perdida. A filha mais tarde envergonhar-se -ia de sua origem e talvez a amaldiçoasse.

Aparecia-lhe o mundo com a sua moral severa a estigmatisa-la, a exclui-la do rol das mulheres honestas, a família a expulsá-la.

Podia continuar a ser querida e respeitada. Ninguém descobriria sua falta, frequentaria a sociedade, seria bem recebida em toda parte, encontraria talvez um homem que a desposasse e havia de ser feliz. Mas para conseguir isso devia abandonar a filha aos cuidados estranhos, condená-la a implorar continuamente a caridade alheia. Era horroroso!...

Tinha-a junto do coração, molhava-lhe as facezinhas rosadas com lágrimas de ternura acariciava-lhe a loura cabecinha, extasiava se diante dos seus olhos que se abriam indecisos como para fitá-la e dizer-lhe: não me abandones.

O amor materno ia triunfar, mas ali estava alguém aa reclamar-lhe a criança, a animal-a ao sacrifício expondo-lhe as consequências de sua fraqueza, a dizer-lhe que se apressasse, que em casa poderiam desconfiar de sua demora.

Pobre mãe! O miserável que murchou a coroa de tua virgindade não pensa decerto nas angústias porque estás passando.

Ri neste momento, quem sabe?

A sociedade não há de repelir, elle tem o direito de entrar com a fronte erguida nos salões, onde se ostenta a gente melhor e será recebida com atenções e obséquios.

Mas, tu, vitima indefesa, terias arremessada ao charco onde se revolvem as criaturas sem pudor.

Não te vendeste, o amor te perdeu, te entregaste generosamente e sem restrições ao homem que te fez pulsar o coração ainda virgem; porém o mundo não indaga destas cousas. Há de salpicar-te o rosto com a lama da degradação e marcar—há a fronte com o selo da ignomínia e da desonra!

Nem mesmo a maternidade dá o direito de esperar indulgência. Riram de tua dor e zombaram de teus desvelos, e sobre tua filha recairá a tua infâmia.

A jovem mãe sente a vertigem do desespero. Passa-lhe pelos olhos uma nuvem que a deslumbra.

Aperta mais o filhinho, cobre-a de beijos, agasalha-a cuidadosamente contra as intempéries do tempo à pessoa que a espera.

Depois, como impelida por força sobre humana ergue-se do leito dos sofrimentos, deixa a mansarda úmida e estreita e volta para a casa da família.

Vai continuar a frequentar o mundo.

Ninguém lhe verá a palidez das faces e as palpitações nervosas do coração.

Sua honra está salva, porque o mundo contenta-se com exterioridades.

E enquanto ela aparentemente é feliz, e cercam-na de homenagens e afeições, a filhinha aos cuidados de estranhos não passa de uma enjeitada.

F. Clotilde. A Quinzena. Fortaleza CE, 15/10/1887.

 

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MEU AMOR

                                     F Clotilde

Vê-la todos os dias, quando, encantadora no negligé matinal descia ao jardim para colher uma flor ou para divagar através da perfumada avenida, ouvir-lhe a voz mil vezes mais doce do que a das aves que a saudavam com festivais gorjeios, mandar-lhe em um olhar a alma inteira, era a única felicidade, a consolação única do infeliz moço que de há muito a amava ardentemente.

Mas uma distância imensa os separava. Ela era rica e nobre, ele pobre e obscuro. E a sociedade impõe preconceitos, o mundo cria obstáculos que é impossível transpor.

Ele queria ocultar no íntimo do coração aquele sentimento que lhe dominava todo o ser; jurara a si mesmo não tornar a vê-la; porém assim que o primeiro raio de sol vinha beijar-lhe a fronte, ia ao jardim, e esperava ansioso e trêmulo que ela passasse.

Imaginava ás vezes que era amado, adivinhava um sorriso nos lábios dela, vislumbrava uma chama no seu límpido olhar, e sentia então ímpetos de cair-lhe aos pés e de dizer-lhe : Amo-te, amo-te tanto que por ti daria a própria vida!

Benditas ilusões da mocidade! Risonhas e gentis esperanças que nos embalais os primeiros anos, fazendo-nos entrever por um prisma azul e fascinador as mais belas e sedutoras realidades!

Sois vós que embelezais a primavera da vida, sois vós as flores dessa bela quadra da existência que infelizmente passa e não volta mais!

Ele era moço, amava e esperava; e no entanto ela nem percebia a muda adoração que lhe era tributada, nem via o olhar profundo e ardente que buscava o seu traduzindo a mais apaixonada súplica.

Uma manhã caiu-lhe das longas tranças uma rosa branca. Ele apanhou-a tremendo. Seus lábios sutis como a asa do uma borboleta roçaram as pétalas meio abertas da mimosa flor, e depois de um momento de hesitação entregou-lha enleado.

Sentiu a maciez da nívea mão que se estendera para a sua e ficou deslumbrado contemplando a beleza daquele rosto cândido e suave; mas quando o sentimento é muito forte a língua se entorpece e ele não pode balbuciar um som.

Assim passaram-se muitos dias  Ela vinha todas as manhãs ao jardim, ele a contemplava oculto pelas ramas do caramanchão, e cada vez a amava mais.

Confessar-lhe o sentimento de sua alma parecia-lhe um crime.

Entre a orgulhosa filha do titular, e o humilde filho do jardineiro mediava um abismo.

Uma manhã ela não veio .

Acompanhava-a um moço elegante e formoso que lhe falava sorrindo, e em cujo braço ela se apoiava docemente risonha e feliz.

Foram sentar-se sob o mesmo caramanchão onde ele costumava ocultar-se.

Oh! ironia pungente do destino!

O desgraçado ouviu a confissão de amor que faziam àquela por quem daria a própria vida, viu o seu rubor, o seu adorável enleio e pode ouvir também o sim que ela pronunciou e que lhe chegou aos ouvidos como uma sentença de morte.

Teve um momento de vertigem. Sentiu o atordoamento que produzem as grandes quedas. Que terrível acordar! Caíam por terra todas as suas ilusões, todos os seus dourados sonhos. Ela amava outro!

Uma idéia criminosa assaltou-lhe a mente.

Comprou um punhal e pensou em embebê-lo ao sangue do rival.

Não, aquele casamento não se realizaria. Ela tornaria a ser livre, e ele poderia ao menos adorá-la todos os dias, sem que alguém viesse profanar a santidade do seu fervoroso culto.

Esta ideia insensata arraigou-se-lhe ao cérebro de tal forma que uma manhã intentou executá-la.

Foi esperar os amantes. O sangue queimava-lhe as carnes, o olhar despedia chispas de ódio. Estava feroz no delirante ciúme que o arrastava até a consumação de um crime.

Seria pressentimento? Nessa manhã ela estava pálida e fitava o noivo com um olhar mais cheio de ternura.

Repetiram o mesmo idílio, estreitaram-se as mãos e o coração segredou-lhes a dulcíssima poesia dos vinte anos.

— Se morresses eu morreria também, disse ela depois de tê-lo ouvido queixar-se de um pequeno incômodo.

A que vinha falarem da morte quando a vida lhes sorria, iluminada pelo sol do amor?

Que ia fazer o desvairado? Matar aquela que amava?

Escondeu o punhal. Agora lhe restava um recurso.

E a idéia da morte lhe apareceu no cérebro como o derradeiro lenitivo á sua enorme dor.

Pensou no suicídio

Chegou enfim a noite das núpcias, e ela ainda mais formosa sob as roupagens de noiva, pronunciou aos pés do altar o — sim, que a ligava para sempre ao escolhido do seu coração.

Com que desespero ele ouviu esta palavra que impiedosa quebrava a ultima corda de sua esperança!

E ela sorria-se no êxtase da felicidade, enquanto ele se estorcia nos paroxismos da dor!

Era horroroso! Que ia ser dele dali em diante? Viver sem aquela ilusão lhe era impossível. a morte poria termo ao martírio que o torturava.

A paixão alucinava-o, aturdia-o, embriagava-o.

Fugiu-lhe o derradeiro lampejo da razão, e como louco deitou-se junto às rodas do carro que ia levá-la à casa.

O cocheiro nada viu, e quando quis conhecer a causa do violento choque que o carro experimentara, encontrou um cadáver com o crânio fraturado e todo inundado em sangue.

No outro dia, quando ela trazendo no rosto os vestígios de uma insônia feliz descia ao jardim ao lado do esposo, o cadáver do infeliz baixava à sepultura.

Todos lamentaram o incidente; porem ninguém soube nunca que o que ocasionara aquela morte fora... o amor!

 

JANE DAVY. A Quinzena. Fortaleza CE, 15 de Abril de 1887 pp. 54/55



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BRINCAR COM CINZAS 

F. Clotilde 

 

O acaso colocou-os de novo em face um do outro, depois de cinco anos de separação.

Eles se tinham amado ardentemente durante alguns meses e vivido isolados do mundo, embebidos em sua felicidade; mas um dia olharam-se indiferentes e quebraram aquelas doces relações.

Porque esse rompimento? Não eram felizes? Não se tinham jurado tantas vezes um amor eterno? Há coisas que não se explicam.

Ele foi viajar. Ela atirou-se ao turbilhão do mundo á vida de festas, sequiosa de luxo, de adorações.

E nem ao menos uma recordação, uma saudade!

Custaram a conhecer-se. Ambos tinham mudado muito durante a ausência.

Ele não se cansava de contemplá-la, admirado de vê-la tão formosa.

Ela atropelava-o com perguntas. Indagava os lugares por onde andara, o que tinha visto de mais interessante, quais as impressões que sentira na viagem.

Uma suave intimidade renascia entre eles. Pareciam irmãos que se interrogassem depois de uma longa e penosa ausência.

Aceitas o meu braço?

— E onde me levas?

— Vamos almoçar. Ela acompanhou-o sem constrangimento, risonha, quase feliz de o tornar a ver.

Achava-o também mais formoso. O vestuário elegante dava-lhe um certo ar de nobreza e distinção. Tinha adquirido melhores maneiras, sua conversação se tornara variada e agradável até mesmo o olhar tomara uma nova expressão.

Falava-lhe dos legares que tinha percorrido, das magníficas paisagens que apreciara, dos costumes estrangeiros que notara com uma graça e volubilidade encantadoras.

Chegando ao hotel pediram almoço.

Sentiam um bom humor admirável.

Nunca no tempo em que viviam juntos haviam passado tão deliciosa manhã.

Falaram do passado.

Recordaram a primeira vez que se tinham visto

Nesse dia ela trajava um vestido cor de rosa que lhe empalidecia ligeiramente as faces suavizando-lhe a beleza. Trazia um chapelinho de plumas brancas e folgava descuidosa como uma criança travessa, ao lado de uma amiga da sua idade.

Relembram as cousas mais insignificantes, as puerilidades mais graciosas. A memória lhes reavivava cenas que pareciam esquecidas.

Achavam um certo encanto em revolver as cinzas daquele passado que para eles tinha se esvaído como sonho.

Falaram de uma noite de teatro, em que ela, despelada e ciosa porque ele tinha assestado o binóculo para uma atriz, se retirara antes de terminar a peça, e de uma manhã do estio, límpida e formosa, com todos os perfumes das flores, com todos os gorjeios das aves, em que eles tinham divagado através dos campos, felizes e alegres como noivos apaixonados.

Misturaram risos e prantos, carícias e desdém, o que houvera de bom e transparente na sua união ao que ela tivera de sombrio e mau.

Como as horas voavam rápidas, levando as últimas fragrâncias dessas flores murchas que eles desfolhavam!

É tão bom falar-se do passado com alguém que nos compreenda, e que como nós lamente esse tempo, sem dúvida o melhor da vida!

lhes era tão doce estar juntos naquele íntimo sossego de outrora. (...) larga conversação que tinham tido sobre o passado prendera-os de tal sorte que lhes faltou coragem de separar-se.

Eles se tinham divertido a brincar com as cinzas da fogueira que julgavam extinta e insensivelmente haviam ateado um incêndio.

O passado com todos os seus encantos atraía-os de novo.

Agora ele fixava os olhos nos dela com unia expressão repassada de um sentimento tão forte que a deixava atordoada.

Apertando-se mutuamente, tremiam-lhe as mãos, e os lábios mal puderam balbuciar uma confissão de amor!

Daí a 8 dias era-lhes impossível separar-se mais.

Pertenciam um ao outro por direitos mais justos, por titules mais sagrados.

E nos momentos de colóquio íntimo em que seus corações se expandiam ao calor do sentimento que os dominava, gostavam de dizer sorrindo-se: Foi brincando com as cinzas do passado que chegamos a amar-nos devoras.

 A Quinzena. Fortaleza CE, 15/05/1887

 

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                                         SAUDADE DE UM ANJO

           F. Clotilde

Apenas os lábios maternais contraídos por uma dor enorme pousaram o último beijo nas pálpebras arroxeadas de Lili, sua alma inocente e pura voou para o céu.

Uma nuvem dourada pelos raios do sol que acabava de nascer por trás da colina, num dia de estio brilhante e formoso transportou-a do mundo à pátria dos anjos.

E Lili pensou que sonhava ao ver-se naquela mansão de delícias, inundado por uma luz que quase lhe deslumbrava os olhos, respirando perfumes misteriosos e de uma suavidade tal que pareciam se evolar de um imenso vergel de rosas e jasmins.

Os querubins vieram recebê-lo contando hinos festivais. Tinham asas deslumbrantes e roupagens de finíssima gaze e eram todos tão lindos que Lili quedou-se a contemplá-los em verdadeiro êxtase.

Uns tangiam áureos bandolins, outros tiravam das harpas sons harmoniosos, outros enfim dedilhavam instrumentos desconhecidos com uma gentileza encantadora.

A entrada de Lili no céu era uma festa.

Os anjos levaram-no em triunfo para as moradas paradisíacas.

Atravessaram paragens luminosas onde o ar estava impregnado do aroma de incenso e mirra.

Por todos os lados brilhavam flores as mais belas e que em nada se assemelhavam às dos jardins terrenos.

Lili procurava recordar-se do que lhe havia acontecido.

Lembrava-se que estivera muito doente,  que sua mãe não se afastara um só instante de junto de seu pequeno leito, que lhe vira sempre nos olhos vestígios de pranto, que ela o beijara repetidas vezes com  muito carinho.

Tinha sentido um peso estranho na cabeça, um entorpecimento em todo o corpo. Um frio glacial se apoderara dele, sentira vontade de dormir e fechara os olhos.

Depois... Não se lembrava de mais nada.

Por isso figurava-se-lhe sonho tudo o que estava vendo. Achava-se muito à vontade entre aquela legião de anjos risonhos e carinhosos, era tão bonito tudo o que o rodeava que ele não desejava acordar.

Transformara-se em querubim. Tinha asas transparentes como os raios de uma estrela e um diadema de esplêndidos diamantes ornava-lhe a fronte.

Tornara-se leve como uma borboleta e voava inebriado de felicidade a par de seus amiguinhos por entre o exército de bem aventurados e virgens cercadas de esplendor divinal.

Aproximaram-se de um trono iluminado por um fulgor ainda mais belo e intenso.

Os perfumes tornavam-se mais embriagantes, os cantos mais ungidos de amor junto do sólio majestoso do santo dos santos.

Lili ante aquele espetáculo surpreendente e sublime compreendeu o que acontecia. Estava no céu.

Aquela deleitável habitação era o paraíso. Sua mãe falara-lhe tantas vezes.

-           Se fores bom e obediente, meu filho, diria-lhe ela, Deus gostará de ti e  te reservará um lugar junto de seu trono.

Realizara-se a promessa; ele estava perto do trono de Deus.

Mas então tinha morrido sem sentir dor alguma. A doença lhe havia minado pouco a pouco a existência e ele se finara como flor a que falta seiva e orvalho.

Como era bom morrer pequenino!

No céu só havia risos, músicas e perfumes; nem um rosto triste,    nem    uma sombra de dor.

Deus beijava as frontes dos seus anjos com ternura do pai e a Virgem alisava-lhes os louros cabelos, envolvendo-os em carinhos verdadeiramente maternais.

O mundo era tão feio e triste!

Pequenino como era Lili não compreendera suas misérias e sofrimento; mas vira muita lágrima nos olhos dos pobres que estendiam a mão pedindo com que matar a fome. Crianças de sua idade andavam quase nuas e descalças através das ruas nos longos dias de inverno expostos à chuva e à lama.

No céu, porém, eram todos formosos como um riso d’alvorada, trajavam riquíssimas galas, não havia ricos nem pobres, todos sentiam o mesmo prazer e tinham direito à mesma felicidade.

Mas no meio daquele viver inexprimível daqueles gozos sem mácula que transportavam as almas eleitas em um rapto de íntima adoração aos pés de Deus, entre aqueles cânticos que deliciavam os ouvidos e aqueles aromas que se espargiam cada vez mais suaves, cercado da infinidade de querubins e serafins que acompanhavam o séquito imponente das virgens e dos justos Lili teve saudades do mundo.

Lembrou-se de sua mãe que lhe queria tanto e que devia estar inconsolável pela sua morte.

Teve sede de seus beijos, de seus afetos, de todas aquelas carícias com as quais ela o festejava quando abria os olhos todas as manhãs.

O céu com todos os anjos, arcanjos, virgens, santas e mártires não valia um só dos afagos dela.

E Lili sentiu uma saudade profunda. Trocaria tudo aquilo que ainda há pouco o extasiava por alguns dias mais passados junto de sua mãe.

Deus viu o que se passava na alma do pequeno querubim e se apiedou de sua tristeza.

A mesma nuvem dourada envolveu-o como uma rede de luz e opala, e em breve foram desaparecendo a seus olhos todas as belezas e esplendores da mansão bem aventurada.

Lili viu-se no seu leito e sentiu nos lábios a doçura de um beijo de sua mãe, ao mesmo tempo que um alegre raio de sol vinha brincar-lhe no rosto.

JANE DAVY . A QUINZENA. Fortaleza, 23 de Fevereiro de 1888.

 

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TRISTEZA DE UM ANJO

                                                                                                                                                                                                                                                F. Clotilde 


Era a primeira vez que Rosinha, a gentil e encantadora filha do comendador B... entrava em uma choupana.

Naquela tarde ela prolongara o passeio pelos arredores da cidade, e casualmente fôra parar à porta de uma desses pobres lares desabrigados cujos donos só possuem filhos e carinhos.

A graciosa criaturinha acostumada ao luxo e à grandeza ficou horrorizada ante o triste espetáculo que se lhe apresentou.

Uma mulher ainda moça, mas pálida e abatida pelo sofrimento estava rodeada de quatro criancinhas louras e franzinas que se lhe achegavam ao seio, em busca de amor e agasalho.

A triste mãe estreitava-se dolorosamente aos pedaços de sua alma, que na véspera tinham ficado sem pai e derramava copiosas lágrimas.

O desespero invadia-lhe o coração, e fitando os seus pálidos anjinhos tinha acessos de dor tão fortes que receava perder a razão.

Rosinha comoveu-se diante daquele quadro, cheios de angústias atrozes e não poude deixar de chorar.

Voltou do passeio aflita e consternada.

À noite havia reunião em casa do comendador, e na agradável palestra de família entremeada de trechos de música habilmente executados por um pianista em voga, todos notaram a tristeza de Rosinha.

O sorriso feiticeiro e bondoso que sempre lhe brincava nos rosados lábios tinha desaparecido naquela noite para dar lugar á uma expressão de dor angélica e irresistível.  Que tem a menina? Que tem a Rosinha camasinha de cortinado, e acorda aos beijos de minha mãe, alegre e venturosa.

Cercam-me de mimos, cobrem-me de afagos e eles?!  Pobres crianças!

E toda essa desigualdade porque eu sou rica e eles são pobres!

Ah! isso é injusto e mau, e Deus não devia permitir que assim fosse.

E enquanto o piano desprendia acordes harmoniosos ou variações agudas e brilhantes Rosinha enxugava as lágrimas que de vez em quando vinnham umedecer-lhe os longos cílios.

Finalmente vai falar a Rosinha, disse a mãe, já meio risonha. Silêncio, escutem minha filha.

E a menina ainda hesitante fez ouvir sua vozinha angelical, doce como um gorjeio  da ave ao romper da manhã, e contou o motivo de sua tristeza.

- Não imaginam, disse, como era aquela casa pobre e núa! Nem uma cadeira, nem uma mesa!

A viúva chorava abraçando os filhinhos, quatro criancinhas louras cujo aspecto fazia cortar o coração.

Tinha-lhes morrido ontem o pai e nem sequer possuíam dinheiro para vestirem luto.

Ah! mamãe, nunca vi uma cousa que me causasse tanta pena!

Se estivesse em minhas mãos remediava aquele infortúnio.

E a Rosinha chorava sem poder sufocar o pranto.

Sua mãe não pode conter-se. Abraçou-a freneticamente, enquanto ela abria uns grandes olhos como se não tivesse compreendido a causa daquela efusão de ternura.

- Minha filha, irei amanhã  ver a viúva e os órfãos que tanto te interessam, e toma-lo-ei sob minha proteção.

- Bravo! bravo! disseram todos, e nós nos associamos de boa vontade a uma ação tão bela e a uma caridade que vai ser tão bem aplicada.

No outro dia a viuva recebeu mais de uma visita de pessoas que frequentavam os salões do comendador, e como estas lhe deixavam uma boa esmola e a mãe de Rosinha cumprira a promessa solene que fizera, em breve tempo ela habitava uma singela, mas aceiada casinha e seus filhos já robustos e vigorosos recebiam instrução em um dos colégios da cidade.

Também daquele dia em diante nunca mais se viu a Rosinha, triste, e como sua mãe lhe proporciona meios de acudir a todos os infortúnios, ela tornou-se para os infelizes uma espécie de Providencia, e com uma ternura verdadeiramente angelical percorre as choupanas do pobres espalhando sorrisos e esmolas e recebendo em troca afetos e bênçãos.

Pedro II. Fortaleza CE, 10/02/1887.

 

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JESUS E AS CRIANÇAS

         F. Clotilde

 

Acercam-se do Mestre no alvoroço festivo que é próprio da infância muitas criancinhas louras, nascidas sob o céu azul da Palestina.

Sobraçando flores colhidas nos rosais da terra profetas vão umas, outras levam maravilhadas no esplendor divino que circunda a fronte daquele Homem extraordinário, contemplando-no com um misto de curiosidade e receio.

Ao redor de Jesus a turba se aglomera na aridez de ouvi-lo, porque sua voz é dulçurosa como a melodia das aves e fala da esperança, de uma pátria futura, onde todos se nivelam no regaço do comodo, que colhe-lhe com a vossa misericórdia inefável os bons e os maus, os felizes e sobretudo os infortunados.

A própria brisa tornou-se mais cariciosa agitando as folhas dos salgueiros  muito de mansinho, calam-se os gorjeios e cessam os rumores de toda natureza, porque o Verbo de Deus enche de sonoridades estranhas o seio do mundo.

Consciências impolutas, almas simples de pecadores rudes, corações alanceados, espíritos tempestuosamente agitados, vendaval das paixões, míseros enfermos que já não esperam remédio entre os homens, todos a porfia de querer beijar a orla do pobre manto, cheio de pó das estradas, que envolve o Rei dos reis, tornando o mais humilde dos filhos dos mortais.

Nem aos samaritanos, nem aos leprosos ele repele, pois veio consolar os tristes, dar lenitivo aos que padecem.

Vendo as crianças – lyrios trescalantes, a fragrância da inocência dos primeiros dias, chega-lhe em sorriso complacente aos benditos lábios, o olhar traduz um sentimento de ternura infinita. Estende as mãos sobre aquelas cabecinhas mimbadas com o esplendor das graças da infância, e a  voz toma uma acentuação mais cheia de amor quando lhes dá a sua benção.

Os discípulos querem afastar os meninos (o povo anseia por ouvir o Mestre, precisam de ser curados muitos enfermos). Ele, porém, fitando o céu límpido como a luz suavíssima dos seus olhos, diz: “Deixai-os vir a mim...”

E aprazando-se no convívio daquelas criaturinhas que ainda não conhecem o mal, depois de haver sentido tantas misérias e ter estado em contanto tantos fariseus e publicanos, continua com a sua procura que vae direitinho ao coração.

“O reino do meu Pai é daqueles que tiveram o candor de um destes meninos”.

 F. Clotilde, Almanack do Ceará, 1900, p. 151-2.

 

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 CONTO INFANTIL

                                 F. Clotilde

 

Gárrula e saltitante, Lili descera ao jardim.  O dia surgira esplêndido e no azul do céo nem uma  nuvem que lhe toldasse a serenidade e a pureza. As flores em profusão desprendiam-se das corollas, soltando o perfume delicioso, e em  alegre revoada passavam as aves desferindo sonoros gorjeios.

Lili tinha que estudar as lições, escrever os temas, resolver os cálculos.

Que fastidiosa era a lição de gramática !

Uma grande preguiça a invadira perante o aspecto do jardim, em cujas aléas as borboletas brancas e iriadas voejavam em um alviçareiro bando !

Em dourados frisos caiam-lhe os cabelos sobre a testa e os olhos meio velados pela luz deslumbradora fitavam cobiçosos a roseiras cheia de botões  e de folhas orvalhadas.

Nisto entrou a Maria, filha de um aldeão que não frequentava a escola e vivia a brincar como as aves e as borboletas.

- Vamos colher rosas, disse a Lili resoluta, disposta a gazear o estudo.

- Eu vinha... balbuciou Maria tirando do bolso do aventalzinho remendado uma carta de ABC, eu vinha pedir á menina que me ensinasse a primeira lição.

Lili sentiu uma exprobração da consciência, uma pontinha de remorso, o quer que fosse que abalava lá dentro.

Ela que podia frequentar escolas, que tinha livros a escolher, mestres a dirigir-lhe o espírito, perdia as horas da manhã a olhar as flores, enquanto a pobrezinha queria aproveitar o tempo dedicando-se ao estudo!

Tomou Maria pela mão e deixando o jardim, onde o sol brilhava numa efusão de luz acariciadora e ardente, levou-a ao seu gabinete e ali ensinou-lhe a lição e protestou tornar-se um a mestra solicita dando-lhe o exemplo, que é o mais intuitivo de todos os ensinos.


F. Clotilde. Baturité - Abril - 1903 - O Lyrio, Recife PE, 05/06/1903.

 

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 AS MÃES

                                                                                     F. CLOTILDE

 

Que alegre alvoroço vai pela casa em fora, a festejarem todos a convalescença do louro Bebê! Durante tantos dias ele esteve prostado no pequeno leito de cortinas azuis, o rosto embrazado de febre, as mãozinhas a tremer, o olhar desvairado, mal balbuciando o nome da mamãe e a pedir água que lhe refrescasse os lábios ressequidos.

Que susto sofrera a jovem mãe, que pensamentos lúgubres a assaltaram vendo o filhinho doente e julgando que a morte ia arrebatá-lo para sempre de seus braços!

Ela chorava lágrimas que lhe amarguravam o coração ainda a pouco palpitante em efusão de ternura, quando fazia saltar o Bebê ao colo e via-o sorrir com aquele sorriso angélico que lhe acentuava as covinhas das faces. Era o seu primeiro filhinho e queria-o com tanto desvelo!

Fugia-lhe o sorriso, já não corria. O sossego desertara de sua alma e o pesadelo horrível, a ideia negra da morte roçava-lhe o espírito como a asa de um’ave agoureira, quando a aflita mãe espreitava o sono da inocente criança num arquejar de doente a estremecer, tempo diferente das noites tranquilas, em que, receosa de assustá-lo, guardava o beijo para o seu despertar e o envolvia em carícias suaves, numa explosão súbita de amor, como só as mães sabem fazê-lo.

Então... Ele morreria! Vê-lo-ia no caixãozinho azul, coberto de rosas, perfumado de jasmins e a sua fronte esmaecida como uma bonina fanada, repousaria para sempre longe de seu regaço amantíssimo. O berço ficaria vazio e não mais na alcova confortável, ela o embalaria a cantar suavemente em harmonias castas, a música inefável do poema sublime do amor materno.

Sim... está salvo o Bebê! Ei-lo a estender de novo os braçinhos, volta-lhe a cor rosada das faces, onde as covinhas se formam mais gentis.

Foram-se tantos os sustos, já a feliz mãe não pensa na morte!

O espectro final da angina a arrebatar-lhe o filho desapareceu, e as cortinas do gracioso leito se levantaram para que o convalescente veja um pedaço do céu pela fresta da janela entreaberta, por onde vagam suaves perfumes de madre-silvas em flor.

Não foi a medicina nem tampouco o seu aparato terapêutico e científico, nem mesmo a ternura maternal que disputara corajosamente à morte a vida do filho, não foi o anjo da guardado Bebê que lhe restituíram a cor bonita das faces.

Foram simplesmente duas colherinhas de CAFÉ (rasurado) que salvaram o Bebê e deram alegria e conforto ao coração de sua mãe extremosa!

 

F. Clotilde. Almanack de Ceará. Fortaleza CE, 1909 pp. 210/211.



PARALELO (À D Cândida de Barros)

                                                                                                                                                                                                                                                 F. CLOTILDE                           

     

Enquanto tu, oh! Filha do opulento dorme no teu leito macio abrigado por finíssimas cortinas e vês em redor de ti um manto acariciador de afetos e conforto sempre  pronto a envolver-te em doce tepidez quantas criancinhas pobres sentem frio nos casebres deteriorados, por onde a chuva penetra levando a umidade doentia das noites hibernais!

Quantas mãozinhas enregeladas procuram esconder-se sob os andrajos, em busca do calor que lhes aqueceria o sangue e lhes amaria a vida tão cheia de privações !

Enquanto tu passas longos dias de inverno na sala tapetada, lendo bonitos trechos, desfrutando as comodidades, da riqueza sem que  uma refrega de vento te fustigue o rosto, eles, os pobrezinhos, muitas vezes famintos, expõem-se as bategas de água, afrontam a lama e sentem a sensações da miséria com todo o rigor, com toda a força aterradora de que tu zombas.   

Pensa neles que sofrem tanto, pensa nos filhos do pobre que trabalha nos descampados, cultivando a terra, com os pés descalços, a cabeça descoberta, o corpo mal agasalhado, enquanto tu, saudando o inverno com cânticos de jubilo, seismas na delicia das noites passadas no suave conchego da família.

Que um sentimento de caridade te inspire a  preparar com as fazendas que te sobram dos trajos luxuosos, uma roupinha  mais decente para os míseros entes a quem os pais mal podem salvar de morrer de fome, reserva do dinheiro que desbaratas em frioleiras e objectos de vaidade, um pouco para que a criança desvalida da fortuna possa ter alguns  momentos de conforto.

Si assim fizeres que doce  e inefável prazer não te inundará o coração !

Verás então que acima dos gosos da riqueza, dos passageiros deleites da opulência, acima do apreço dos homens e dos encantos da beleza, há o prazer sublime de praticar o bem.

Verás então que ha uma coroa superior a todas que te podem emoldurar a fronte:  a que há de tecer-te o amor da pobreza agradecida e na qual se hão de gastar as lagrimas das crianças, lágrimas que enxugaste com a tua meiguice caritativa e boa.

 

Revista O Lyrio. Recife PE, 05/05/1903

 

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CONTO INFANTIL (Para Dinorah)

                                                                              F. CLOTILDE    

                                                                                                                                                      Jesus quando era menino tinha muita predileção pelos lyrios.

Quando o sol emergia no límpido horizonte da Palestina espalhando no seio dos vales a sua luz criadora e  deslumbrante,  ele sabia da humilde casinha do carpinteiro e descia a colina, um doce sorriso a brincar-lhe nos lábios e o olhar divino irradiando um sentimento de ternura indefinível.

E colhia muitas flores por entre os liriais nitentes, cobertos do fresco orvalho da madrugada.

- Porque gostais tanto desta flor? perguntou-lhe um querubim de asas fulgentes que viera do céu, entreter-se com o pequeno Jesus.

Sentia-se no ar o delicioso aroma das corolas puríssimas que se entreabriam aos beijos da luz, e a viração matutina sacudia de manso os cabelos alourados do futuro Redentor.

- Porque gosto de lyrios ?

E Jesus aspirou com delicia uma flor meio desabrochada que acabava de separar da haste verdejante.

São eles o símbolo da pureza das consciências imaculadas, das almas inocentes.  Eu  amo os lyrios porque  têm  a cor nevada e, sua essência delicada é como o perfume de virtude dos corações que fogem do mal.

Enquanto o anjo espalmando as suas asas defendia o gracioso Deus-menino dos raios quentes do sol, Jesus colhia mais um punhado de flores e alegre, a sorrir, galgava a colina espalhando aromas,  difundindo uma luz etherea sobre a estrada limpa.

Oh! A pureza da consciência como agrada aquele que se compraz entre os lyrios e folga de estar no meio dos perfumes da flor virginal!

  Revista O Lyrio. Recife PE, 01/04/1903.


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MARINA

                                                                          F. Clotilde

  

Nascera em pleno oceano e os seus primeiros sonos embalaram-no as vagas revoltas, naquela noite hibernal em que o navio sulcava o dorso das aguas, em perigosa travessia..

Devia chamar-se Marina e assim foi. Era a criança mais linda que se podia imaginar e o seu sorriso tinha uma graça inefável, uma doçura infinita.

Nos seus olhos refletia-se o verde das ondas e a luz radiosa da estrella polar. Todas a estimavam e, quando ela completou sete anos era tão interessante, tão viva que por onde passava, despertava admiração e espalhava afetos..

Marina tinha um coração de ouro, não podia ver uma lágrima, não fazia sofrer ninguém. As meninas da sua idade adoravam-na e, se ela não tomava parte nos brinquedos, ficavam triste porque sem o seu encanto infantil nada lhes  parecia bom, nem apresentava atrativo algum.

       .Como ela adorava o mar!  Passava horas inteiras apreciando o movimento das ondas, apanhando búzios e conchinhas que se irisavam ao reflexo do sol. O barulho das águas era para o seu coração uma música deliciosa. Muitas vezes adormecia numa gruta que havia nas proximidades da costa sonhava cousas maravilhosas, surpreendentes, incompreensíveis. Mesmo, nos dias de tempestade, quando os elementos se desencadeavam e os barcos eram o joguete das vagas enfurecidas, pondo em risco a vida de muitas pessoas, a gentil menina não deixava de ir visitar o seu berço e estranhava aquela a agitação, aqueles embates terríveis que a assustavam enchendo-a de apreensões sinistras.

Então em face do oceano proceloso, vendo o céu coberto de nuvens negras, sem um pedacinho azul a sorrir, sem um ris de bonança a pressagiar o bom tempo, ela se ajoelhava na praia desolada e erguia ao céu uma prece fervorosa. Rogava pelos viajantes e pelos pescadores que se arriscavam a afrontar a procela, volvia um olhar angustiado para a superfície convulsionada e pedia à Estrella do Mar que os protegesse estendendo sobre eles a destra misericordiosa.

Uma tarde o tempo estava horrível e nevoeiro espesso ocultava o brilho do sol. O Mar lutava com indescritível fúria e parecia querer ultrapassar o limite das praias. As famílias dos pescadores com o coração ansioso aguardavam a volta dos barcos e receavam que se desse algum desastre.

Marina como um anjo da esperança lhes sorria dizendo palavras de conforto.

De súbito um grito vibrou estertorante, quase em desespero.

O barco do velho Tiago, pai de Jorge, um pequenito louro que chorava na praia ameaçava submergir-se.

Uma forte impressão de susto roubara a coragem a todos que se achavam na praia.

Marina não perdeu a presença de espírito. Parecia dominar a fúria da tempestade com a sua presença

- Vamos salvá-los pai, urge socorrê-los.

E eIa mesmo deu o exemplo tomando ousadamente um bote e incitando seu pai a acompanhá-la.

No meio das trevas que se tornavam cada vez mais  compacto o seu vestidinho branco era um doce símbolo de amor, uma promessa de bonança e de paz.

Choravam comovidos aplaudindo o ato generoso da menina.

Dentro de meia hora voltavam sã e salvos e o barco do velho Tiago entrou sem nenhum embate no abrigo do porto,

Fez-se a serenidade, o azul límpido reapareceu, uma estrella palpitou medrosa, num pedacinho do céu varrido de nuvens e todos levavam em triunfo a graciosa Marina com os cabelos soltos, o vestidinho molhado; mas tão feliz e risonha com o coração cheio de tinia doçura imensa e cada vez mais amiga do oceano que parecia compreendê-la e a obedecer ao encanto irresistível de sua inocência e de seu afeto.

Revista  A Estrella. Aracati CE, out de 1915 p 36-38

 

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ALGUNS RECORTES


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