sábado, 2 de outubro de 2021

FRANCISCA CLOTILDE A EDUCAÇÃO MORAL DAS CRIANÇAS NA ESCOLA

 

FRANCISCA CLOTILDE


Francisca Clotilde nasceu em Tauá, CE aos 19 de Outubro de 1862. Faleceu em Aracati aos 08 de dezembro de 1935.

Fez as primeiras letras com a professora Ursulina Furtado na Vila de Baturité. Cedo demonstrou aptidões poéticas, antes de completar 15 anos teve poema publicado em tradicional Jornal da Capital da Província. Diplomou-se no Colégio Imaculada Conceição em Fortaleza.

Aos 20 anos tornou-se professora interina de escola anexa à Escola Normal. Aos 22 anos foi aprovada em concurso para referida escola (1884). 

Membro da Associação da Senhoras Libertadoras, Órgão do Movimento Abolicionista. Foi também participante do Centro Literário. Há quem diga que sua produção literária em jornais e revistas da época dariam volumes.

Criou em Fortaleza uma Escola Particular, denominada Escola Santa Clotilde (1891). Morou em Acarape, em Baturité e por último em Aracati (1908-1935), nessa última cidade fundou o Externato Santa Clotilde.

Autora de: Livro de Contos (1897), de Noções de Arithmetica (1889), também de um romance, A Divorciada (1902).

Pois bem, aqui trazemos a Crônica A EDUCAÇÃO MORAL DAS CRIANÇAS NA ESCOLA 

1.        A educação moral é a parte mais importante da missão da escola, porque forma o caráter, purifica os costumes, desenvolve os bons impulsos do coração e tem sobre a educação física e a intelectual uma incontestável superioridade.


2.          Quando a criança passa da família para a escola, trocando os inocentes brinquedos do lar pelas lides do estudo, é mister que a pessoa que vai desempenhar junto a ela as funções de preceptor guie com desvelo e sabedoria os seus primeiros passos através daquele mundo que lhe é inteiramente desconhecido.


3.     Até ali a tenra criancinha só conheceu a doçura das carícias maternas; mas ao completar 7 anos e às vezes mais cedo é arrancada à ledice de seus gentis folguedos e passa da tutela afetuosa de sua mãe para a do professor – uma entidade que ella não conhece e que por essa razão deve recear e temer.


4.      Desde que o primeiro sorriso desponta nos lábios da criança deve-se principiar a educá-la, disse-o um ilustrado sacerdote, e é à mãe que cumpre encarregar-se da primeira educação do filho e infiltrar-lhe no coração o gérmen do bem e as notas principiais do caráter.


5.       Dizem que Scott recebeu a primeira inclinação para a poesia por escutar as canções de sua mãe. Nas frases do notável moralista Smiles, a infância é como um espelho que no decurso da vida reflete as imagens que primeiro lhe foram apresentadas.


6.      O professor é encarregado de continuar a desenvolver os ensaios de educação feitos pelas crianças no lar, e no desempenho de tal cargo terá muitas vezes que lutar contra pequenos defeitos nascidos na exagerada indulgência de algumas mães, que deixam os filhos seguirem os impulsos da índole e os estouvamentos próprios da idade, sem refletirem nos graves inconvenientes que daí podem resultar.


7.      Se não possuir em alto grau a paciência e a constância, o professor desanimará ante esses obstáculos; mas escudado por essas duas grandes virtudes que lhes devam ornamentar a alma e fortalecê-lo nos momentos de desânimo, chegará a ter bom êxito e conseguirá afastar do coração dos seus pequenos discípulos os maus sentimentos que como plantas daninhas queriam ali deixar raízes.


8.      A época mais importante da vida, como disse Richter é a da infância, que quando a criança começa a modelar-se por aqueles com quem convive, por isso a influencia do primeiro professor excederá sempre a dos outros; portanto os pais devem ser cautelosos na escolha daquele que tem de continuar logo depois deles na educação moral e intelectual de seus filhos e nunca entregá-los a uma pessoa destituída de virtudes e incapaz de dar-lhes bons e salutares exemplos.


9.       Hoje que a escola já não é o pesadelo horroroso que assaltava o sono infantil, nem a prisão sombria onde se encerravam longas horas as louras criancinhas, hoje que a palmatória e os castigos vis e estúpidos foram abolidos como indignos da civilização e do adiamento de nossa sociedade, o menino considera o preceptor como um amigo a quem deve amar e venerar. É, pois, facílimo a este se aproveitar da influência de que goza entre aqueles que educa, para colher ótimos e profícuos resultados na sua nobre missão.


10.     A infância é meiga, propensa à ternura, sincera nas afeições, ávida de carinho. Habituada a ouvir desde o berço a voz melífua que a embalava com ternas canções e a receber suavíssimos beijos dessa providência humana que se chama mãe e que a cerca de desvelos e cuidados por toda parte, deve continuar a ver no preceptor aquele vulto simpático a quem ela se inclinava espontaneamente e com quem se entretinha horas inteiras expandindo seus graciosos pensamentos e satisfazendo sua inocente curiosidade.


11.       O professor deve empregar todos os meios para fazer-se amar pelas crianças. Assim tudo conseguirá delas, porque ninguém resiste ao amor; e uma vez certo da afeição de seus discípulos poderá aperfeiçoar-lhes os bons impulsos e tornar-lhes fáceis os deveres da escola.


12.         A religião e a moral - esses dois elementos indispensáveis para a formação do caráter podem ser infiltrados nos corações infantis da maneira mais simples.


13.          Um passeio à beira-mar, uma manhã de estio, uma flor que desabrocha, uma ave que canta, uma abelha que fabrica mel, uma borboleta que esvoaça podem trazer à criança a ideia do autor dessas cousas que tanto enlevam e arrebatam sua imaginação pueril, e o professor terá ensejo de auxiliar-lhe o espírito de observação, infundindo-lhe ao mesmo tempo o amor às ciências naturais.


14.         Quanto a instrução moral deve ser dada por meio de narrações singelas, historietas ao alcance das inteligências infantis, exercícios orais que deverão ser repetidos para ficarem bem impressos no espírito das crianças, para as quais o melhor compêndio de moral é o exemplo.


15.    Uma palavra, uma pergunta, qual quer incidente da vida escolar pode fornecer ao professor variados temas para essas lições.


16.       O amor dos pais, a união fraterna, o patriotismo, o respeito a velhice, a caridade, a benevolência, o amor à verdade e os demais deveres do aluno para consigo e para com os outros ser-lhe-hão cada vez mais gratos desde que os compreenda e se habitue a cumpri-los, avigorando os bons sentimentos pelo exemplo e conselhos que receber.


17.        O professor deve esforçar-se, sobretudo, para acostumar seus discípulos a fazerem o bem pelo bem e sem o interesse de prêmios que, longe de serem um estímulo, trazem sempre como funestas consequências a inveja, o orgulho e o ressentimento.


18.       O menino deve habituar-se a obedecer, a estudar, a ser afável e condescendente com os seus condiscípulos, a enxugar as lágrimas alheias, a repartir o pão com o mendigo, porque são esses os seus deveres e achará na sanção da consciência e melhor recompensa dos esforços que empregou para vencer a má índole, a preguiça, o egoísmo etc.

19.       Enfim, se o professor possuir qualidades morais elevadas e se à vocação juntar uma instrução completa e uma educação aprimorada concorrerá honrosamente para a formação do caráter de seus alunos e contribuirá para o desenvolvimento e progresso de sua pátria realizando a frase do grande Pestalozzi: “O futuro das nações está nas escolas”.


A Quinzena. Fortaleza CE, 15 de Março de 1887 - Fac-Símile pp 21 e 22 - Biblioteca da Academia Cearense de Letras Fortaleza CE.