Fez as primeiras letras com a professora Ursulina Furtado na Vila de Baturité. Cedo demonstrou aptidões poéticas, antes de completar 15 anos teve poema publicado em tradicional Jornal da Capital da Província. Diplomou-se no Colégio Imaculada Conceição em Fortaleza.
Aos 20 anos tornou-se professora interina de escola anexa à Escola Normal. Aos 22 anos foi aprovada em concurso para referida escola (1884).
Membro da Associação da Senhoras Libertadoras, Órgão do Movimento Abolicionista. Foi também participante do Centro Literário. Há quem diga que sua produção literária em jornais e revistas da época dariam volumes.
Criou em Fortaleza uma Escola Particular, denominada Escola Santa Clotilde (1891). Morou em Acarape, em Baturité e por último em Aracati (1908-1935), nessa última cidade fundou o Externato Santa Clotilde.
Autora de: "Noções de Arithmetica" (1889); Coleção de Contos (1897), também de um romance, A Divorciada (1902).
Pois bem, aqui trazemos alguns CONTOS de sua autoria esparsos em Jornais e Revistas.
Através do conto, Francisca Clotilde faz os primeiros passos, apercebendo e aprimorando-se para o cultivo de outro gênero, de maior amplitude e complexidade: o romance. (Dolor Barreira, História da Literatura no Ceará)
A ENJEITADA
F. CLOTILDE
A gentil criancinha
viu a luz do dia em uma estreita e úmida mansarda. Filha do amor e do crime
nascia quase ao desamparo, e apenas os beijos maternos festejaram-lhe a entrada
no mundo.
A mãe seduzida por um
homem sem coração necessitava encobrir a falta para continuar a viver entre a família, e tinha de abandoná-la à caridade publica algumas horas depois de
nascida.
Era tão franzina!
Precisava tanto de cuidados maternos; porém a sociedade severa e inexorável a
triste sorte da enjeitada.
São assim as leis
humanas.
A moça inexperiente e
sem o escudo de uma boa e sólida educação caíra aos amorosos assaltos de
mancebo sedutor, e tornara-se mãe. Era, portanto, indispensável ocultar o fruto
de uma culpa que o mundo não perdoa, e entre o amor de mãe e o terror do anátema
que lhe cairia na fronte, a pobre moça hesitava.
Abandonar a filha,
uma criaturinha frágil, flor mal desabrochada que a primeira carícia de vento
pode molestar, deixá-la à porta de algum rico compassivo, privá-la dos seus
beijos, não vê-la talvez mais!
Trouxera-a nove meses
no seio, nutrindo-a com o seu sangue, com a sua própria vida.
Às ocultas fizera um
enxolvazinho para que o seu anjo tivesse uma camisinha de rendas e uma touca
enfeitada, ouvira-lhe o primeiro vagido, beijara-a com toda efusão de seu
amor, e ia separar-se dela!
O seu coração de mãe
revoltava-se.
Havia de conservá-la,
embora a família a repelisse.
Trabalharia para
sustentá-la, sofreria junto a si. Já lhe queria tanto!
Mas a vergonha e o opróbrio
que a esperava?
Tratava-se naquele
espírito abatido pela dor física numa luta horrível. Ficaria irremediavelmente
perdida. A filha mais tarde envergonhar-se -ia de sua origem e talvez a
amaldiçoasse.
Aparecia-lhe o mundo
com a sua moral severa a estigmatisa-la, a exclui-la do rol das mulheres
honestas, a família a expulsá-la.
Podia continuar a ser
querida e respeitada. Ninguém descobriria sua falta, frequentaria a sociedade,
seria bem recebida em toda parte, encontraria talvez um homem que a desposasse
e havia de ser feliz. Mas para conseguir isso devia abandonar a filha aos
cuidados estranhos, condená-la a implorar continuamente a caridade alheia. Era
horroroso!...
Tinha-a junto do
coração, molhava-lhe as facezinhas rosadas com lágrimas de ternura
acariciava-lhe a loura cabecinha, extasiava se diante dos seus olhos que se
abriam indecisos como para fitá-la e dizer-lhe: não me abandones.
O amor materno ia
triunfar, mas ali estava alguém aa reclamar-lhe a criança, a animal-a ao
sacrifício expondo-lhe as consequências de sua fraqueza, a dizer-lhe que se
apressasse, que em casa poderiam desconfiar de sua demora.
Pobre mãe! O miserável
que murchou a coroa de tua virgindade não pensa decerto nas angústias porque
estás passando.
Ri neste momento,
quem sabe?
A sociedade não há de
repelir, elle tem o direito de entrar com a fronte erguida nos salões, onde se
ostenta a gente melhor e será recebida com atenções e obséquios.
Mas, tu, vitima
indefesa, terias arremessada ao charco onde se revolvem as criaturas sem pudor.
Não te vendeste, o
amor te perdeu, te entregaste generosamente e sem restrições ao homem que te
fez pulsar o coração ainda virgem; porém o mundo não indaga destas cousas. Há
de salpicar-te o rosto com a lama da degradação e marcar—há a fronte com o selo
da ignomínia e da desonra!
Nem mesmo a
maternidade dá o direito de esperar indulgência. Riram de tua dor e zombaram de
teus desvelos, e sobre tua filha recairá a tua infâmia.
A jovem mãe sente a
vertigem do desespero. Passa-lhe pelos olhos uma nuvem que a deslumbra.
Aperta mais o
filhinho, cobre-a de beijos, agasalha-a cuidadosamente contra as intempéries do
tempo à pessoa que a espera.
Depois, como impelida
por força sobre humana ergue-se do leito dos sofrimentos, deixa a mansarda úmida
e estreita e volta para a casa da família.
Vai continuar a
frequentar o mundo.
Ninguém lhe verá a
palidez das faces e as palpitações nervosas do coração.
Sua honra está salva,
porque o mundo contenta-se com exterioridades.
E enquanto ela
aparentemente é feliz, e cercam-na de homenagens e afeições, a filhinha aos
cuidados de estranhos não passa de uma enjeitada.
F. Clotilde. A Quinzena. Fortaleza CE, 15/10/1887.
F Clotilde
Vê-la
Imaginava
Benditas
Sois
Uma
Sentiu a
Confessar-lhe o
Uma
Acompanhava-a
Foram sentar-se
O
Teve
Uma
Comprou
Esta
Foi
Seria pressentimento? Nessa
Repetiram o
— Se morresses
A
Escondeu o
E a
Pensou no
Chegou
E
A
Fugiu-lhe o
O
No
JANE DAVY. A Quinzena. Fortaleza CE, 15 de Abril de 1887 pp. 54/55
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BRINCAR COM CINZAS
F. Clotilde
O
E
Custaram a
conhecer-se.
Uma
Aceitas o
— E
— Vamos
Achava-o
Falava-lhe dos
Chegando ao
Sentiam
Falaram do
Recordaram a
Nesse
Relembram as cousas
Achavam
Falaram de uma
Misturaram
É
Já
O
Apertando-se
mutuamente, tremiam-lhe as
Daí a 8
Pertenciam
E
SAUDADE DE UM ANJO
F.
Clotilde
Apenas
os lábios maternais contraídos por uma dor enorme pousaram o último beijo nas
pálpebras arroxeadas de Lili, sua alma inocente e pura voou para o céu.
Uma
nuvem dourada pelos raios do sol que acabava de nascer por trás da colina, num
dia de estio brilhante e formoso transportou-a do mundo à pátria dos anjos.
E
Lili pensou que sonhava ao ver-se naquela mansão de delícias, inundado por uma
luz que quase lhe deslumbrava os olhos, respirando perfumes misteriosos e de
uma suavidade tal que pareciam se evolar de um imenso vergel de rosas e
jasmins.
Os
querubins vieram recebê-lo contando hinos festivais. Tinham asas deslumbrantes
e roupagens de finíssima gaze e eram todos tão lindos que Lili quedou-se a
contemplá-los em verdadeiro êxtase.
Uns
tangiam áureos bandolins, outros tiravam das harpas sons harmoniosos, outros
enfim dedilhavam instrumentos desconhecidos com uma gentileza encantadora.
A
entrada de Lili no céu era uma festa.
Os
anjos levaram-no em triunfo para as moradas paradisíacas.
Atravessaram
paragens luminosas onde o ar estava impregnado do aroma de incenso e mirra.
Por
todos os lados brilhavam flores as mais belas e que em nada se assemelhavam às
dos jardins terrenos.
Lili
procurava recordar-se do que lhe havia acontecido.
Lembrava-se
que estivera muito doente, que sua mãe
não se afastara um só instante de junto de seu pequeno leito, que lhe vira
sempre nos olhos vestígios de pranto, que ela o beijara repetidas vezes
com muito carinho.
Tinha
sentido um peso estranho na cabeça, um entorpecimento em todo o corpo. Um frio
glacial se apoderara dele, sentira vontade de dormir e fechara os olhos.
Depois...
Não se lembrava de mais nada.
Por
isso figurava-se-lhe sonho tudo o que estava vendo. Achava-se muito à vontade
entre aquela legião de anjos risonhos e carinhosos, era tão bonito tudo o que o
rodeava que ele não desejava acordar.
Transformara-se
Tornara-se
leve como uma borboleta e voava inebriado de felicidade a par de seus
amiguinhos por entre o exército de bem aventurados e virgens cercadas de
esplendor divinal.
Aproximaram-se
de um trono iluminado por um fulgor ainda mais belo e intenso.
Os
perfumes tornavam-se mais embriagantes, os cantos mais ungidos de amor junto do
sólio majestoso do santo dos santos.
Lili
ante aquele espetáculo surpreendente e sublime compreendeu o que acontecia.
Estava no céu.
Aquela
deleitável habitação era o paraíso. Sua mãe falara-lhe tantas vezes.
-
Se
fores bom e obediente, meu filho, diria-lhe ela, Deus gostará de ti e te reservará um lugar junto de seu trono.
Realizara-se
a promessa; ele estava perto do trono de Deus.
Mas
então tinha morrido sem sentir dor alguma. A doença lhe havia minado pouco a
pouco a existência e ele se finara como flor a que falta seiva e orvalho.
Como
era bom morrer pequenino!
No
céu só havia risos, músicas e perfumes; nem um rosto triste, nem
uma sombra de dor.
Deus
beijava as frontes dos seus anjos com ternura do pai e a Virgem alisava-lhes os
louros cabelos, envolvendo-os em carinhos verdadeiramente maternais.
O
mundo era tão feio e triste!
Pequenino
como era Lili não compreendera suas misérias e sofrimento; mas vira muita
lágrima nos olhos dos pobres que estendiam a mão pedindo com que matar a fome.
Crianças de sua idade andavam quase nuas e descalças através das ruas nos
longos dias de inverno expostos à chuva e à lama.
No
céu, porém, eram todos formosos como um riso d’alvorada, trajavam riquíssimas
galas, não havia ricos nem pobres, todos sentiam o mesmo prazer e tinham
direito à mesma felicidade.
Mas
no meio daquele viver inexprimível daqueles gozos sem mácula que transportavam
as almas eleitas em um rapto de íntima adoração aos pés de Deus, entre aqueles
cânticos que deliciavam os ouvidos e aqueles aromas que se espargiam cada vez
mais suaves, cercado da infinidade de querubins e serafins que acompanhavam o séquito imponente das virgens e dos justos Lili teve saudades do mundo.
Lembrou-se
de sua mãe que lhe queria tanto e que devia estar inconsolável pela sua morte.
Teve
sede de seus beijos, de seus afetos, de todas aquelas carícias com as quais ela
o festejava quando abria os olhos todas as manhãs.
O
céu com todos os anjos, arcanjos, virgens, santas e mártires não valia um só
dos afagos dela.
E
Lili sentiu uma saudade profunda. Trocaria tudo aquilo que ainda há pouco o
extasiava por alguns dias mais passados junto de sua mãe.
Deus
viu o que se passava na alma do pequeno querubim e se apiedou de sua tristeza.
A
mesma nuvem dourada envolveu-o como uma rede de luz e opala, e em breve foram
desaparecendo a seus olhos todas as belezas e esplendores da mansão bem
aventurada.
Lili
viu-se no seu leito e sentiu nos lábios a doçura de um beijo de sua mãe, ao
mesmo tempo que um alegre raio de sol vinha brincar-lhe no rosto.
JANE DAVY . A QUINZENA. Fortaleza, 23 de Fevereiro de 1888.
TRISTEZA DE UM ANJO
Era a primeira vez que Rosinha, a gentil e
encantadora filha do comendador B... entrava em uma choupana.
Naquela tarde ela
prolongara o passeio pelos arredores da cidade, e casualmente fôra parar à porta de uma desses pobres lares desabrigados cujos donos só possuem filhos e
carinhos.
A graciosa criaturinha
acostumada ao luxo e à grandeza ficou horrorizada ante o triste espetáculo que
se lhe apresentou.
Uma mulher ainda
moça, mas pálida e abatida pelo sofrimento estava rodeada de quatro criancinhas
louras e franzinas que se lhe achegavam ao seio, em busca de amor e agasalho.
A triste mãe
estreitava-se dolorosamente aos pedaços de sua alma, que na véspera tinham
ficado sem pai e derramava copiosas lágrimas.
O desespero
invadia-lhe o coração, e fitando os seus pálidos anjinhos tinha acessos de dor
tão fortes que receava perder a razão.
Rosinha comoveu-se
diante daquele quadro, cheios de angústias atrozes e não poude deixar de
chorar.
Voltou do passeio
aflita e consternada.
À noite havia reunião
em casa do comendador, e na agradável palestra de família entremeada de trechos
de música habilmente executados por um pianista em voga, todos notaram a
tristeza de Rosinha.
O sorriso feiticeiro
e bondoso que sempre lhe brincava nos rosados lábios tinha desaparecido
naquela noite para dar lugar á uma expressão de dor angélica e irresistível. Que tem a menina? Que tem a Rosinha camasinha
de cortinado, e acorda aos beijos de minha mãe, alegre e venturosa.
Cercam-me de mimos,
cobrem-me de afagos e eles?! Pobres crianças!
E toda essa
desigualdade porque eu sou rica e eles são pobres!
Ah! isso é injusto e
mau, e Deus não devia permitir que assim fosse.
E enquanto o piano
desprendia acordes harmoniosos ou variações agudas e brilhantes Rosinha enxugava
as lágrimas que de vez em quando vinnham umedecer-lhe os longos cílios.
Finalmente vai falar
a Rosinha, disse a mãe, já meio risonha. Silêncio, escutem minha filha.
E a menina ainda
hesitante fez ouvir sua vozinha angelical, doce como um gorjeio da ave ao romper da manhã, e contou o motivo
de sua tristeza.
- Não imaginam,
disse, como era aquela casa pobre e núa! Nem uma cadeira, nem uma mesa!
A viúva chorava
abraçando os filhinhos, quatro criancinhas louras cujo aspecto fazia cortar o
coração.
Tinha-lhes morrido ontem
o pai e nem sequer possuíam dinheiro para vestirem luto.
Ah! mamãe, nunca vi
uma cousa que me causasse tanta pena!
Se estivesse em
minhas mãos remediava aquele infortúnio.
E a Rosinha chorava
sem poder sufocar o pranto.
Sua mãe não pode
conter-se. Abraçou-a freneticamente, enquanto ela abria uns grandes olhos como
se não tivesse compreendido a causa daquela efusão de ternura.
- Minha filha, irei
amanhã ver a viúva e os órfãos que tanto
te interessam, e toma-lo-ei sob minha proteção.
- Bravo! bravo!
disseram todos, e nós nos associamos de boa vontade a uma ação tão bela e a uma
caridade que vai ser tão bem aplicada.
No outro dia a viuva
recebeu mais de uma visita de pessoas que frequentavam os salões do comendador,
e como estas lhe deixavam uma boa esmola e a mãe de Rosinha cumprira a promessa
solene que fizera, em breve tempo ela habitava uma singela, mas aceiada casinha
e seus filhos já robustos e vigorosos recebiam instrução em um dos colégios da
cidade.
Também daquele dia
em diante nunca mais se viu a Rosinha, triste, e como sua mãe lhe proporciona
meios de acudir a todos os infortúnios, ela tornou-se para os infelizes uma espécie
de Providencia, e com uma ternura verdadeiramente angelical percorre as
choupanas do pobres espalhando sorrisos e esmolas e recebendo em troca afetos e bênçãos.
Pedro II. Fortaleza CE, 10/02/1887.
JESUS E AS CRIANÇAS
Acercam-se do Mestre no alvoroço festivo que é próprio da infância muitas criancinhas louras, nascidas sob o céu azul da Palestina.
Sobraçando
flores colhidas nos rosais da terra profetas vão umas, outras levam
maravilhadas no esplendor divino que circunda a fronte daquele Homem
extraordinário, contemplando-no com um misto de curiosidade e receio.
Ao
redor de Jesus a turba se aglomera na aridez de ouvi-lo, porque sua voz é
dulçurosa como a melodia das aves e fala da esperança, de uma pátria futura,
onde todos se nivelam no regaço do comodo, que colhe-lhe com a vossa
misericórdia inefável os bons e os maus, os felizes e sobretudo os
infortunados.
A
própria brisa tornou-se mais cariciosa agitando as folhas dos salgueiros muito de mansinho, calam-se os gorjeios e
cessam os rumores de toda natureza, porque o Verbo de Deus enche de sonoridades
estranhas o seio do mundo.
Consciências
impolutas, almas simples de pecadores rudes, corações alanceados, espíritos
tempestuosamente agitados, vendaval das paixões, míseros enfermos que já não
esperam remédio entre os homens, todos a porfia de querer beijar a orla do
pobre manto, cheio de pó das estradas, que envolve o Rei dos reis, tornando o
mais humilde dos filhos dos mortais.
Nem
aos samaritanos, nem aos leprosos ele repele, pois veio consolar os tristes,
dar lenitivo aos que padecem.
Vendo
as crianças – lyrios trescalantes, a fragrância da inocência dos primeiros
dias, chega-lhe em sorriso complacente aos benditos lábios, o olhar traduz um
sentimento de ternura infinita. Estende as mãos sobre aquelas cabecinhas
mimbadas com o esplendor das graças da infância, e a voz toma uma acentuação mais cheia de amor
quando lhes dá a sua benção.
Os
discípulos querem afastar os meninos (o povo anseia por ouvir o Mestre,
precisam de ser curados muitos enfermos). Ele, porém, fitando o céu límpido
como a luz suavíssima dos seus olhos, diz: “Deixai-os vir a mim...”
E
aprazando-se no convívio daquelas criaturinhas que ainda não conhecem o mal,
depois de haver sentido tantas misérias e ter estado em contanto tantos fariseus
e publicanos, continua com a sua procura que vae direitinho ao coração.
“O
reino do meu Pai é daqueles que tiveram o candor de um destes meninos”.
Gárrula e saltitante, Lili descera ao
jardim. O dia surgira esplêndido e no
azul do céo nem uma nuvem que lhe
toldasse a serenidade e a pureza. As flores em profusão desprendiam-se das
corollas, soltando o perfume delicioso, e em
alegre revoada passavam as aves desferindo sonoros gorjeios.
Lili tinha que estudar as lições, escrever os
temas, resolver os cálculos.
Que fastidiosa era a lição de gramática !
Uma grande preguiça a invadira perante o
aspecto do jardim, em cujas aléas as borboletas brancas e iriadas voejavam em um alviçareiro bando !
Em dourados frisos caiam-lhe os cabelos
sobre a testa e os olhos meio velados pela luz deslumbradora fitavam cobiçosos
a roseiras cheia de botões e de folhas
orvalhadas.
Nisto entrou a Maria, filha de um aldeão que
não frequentava a escola e vivia a brincar como as aves e as borboletas.
- Vamos colher rosas, disse a Lili resoluta,
disposta a gazear o estudo.
- Eu vinha... balbuciou Maria tirando do
bolso do aventalzinho remendado uma carta de ABC, eu vinha pedir á menina que
me ensinasse a primeira lição.
Lili sentiu uma exprobração da consciência, uma
pontinha de remorso, o quer que fosse que abalava lá dentro.
Ela que podia frequentar escolas, que tinha
livros a escolher, mestres a dirigir-lhe o espírito, perdia as horas da manhã a
olhar as flores, enquanto a pobrezinha
queria aproveitar o tempo dedicando-se ao estudo!
Tomou Maria pela mão e deixando o jardim,
onde o sol brilhava numa efusão de luz acariciadora e ardente, levou-a ao seu
gabinete e ali ensinou-lhe a lição e protestou tornar-se um a mestra solicita
dando-lhe o exemplo, que é o mais intuitivo de todos os ensinos.
F. Clotilde. Baturité - Abril - 1903 - O Lyrio, Recife PE, 05/06/1903.
Que
alegre alvoroço vai pela casa em fora, a festejarem todos a convalescença do
louro Bebê! Durante tantos dias ele esteve prostado no pequeno leito de
cortinas azuis, o rosto embrazado de febre, as mãozinhas a tremer, o olhar
desvairado, mal balbuciando o nome da mamãe e a pedir água que lhe refrescasse
os lábios ressequidos.
Que
susto sofrera a jovem mãe, que pensamentos lúgubres a assaltaram vendo o
filhinho doente e julgando que a morte ia arrebatá-lo para sempre de seus
braços!
Ela
chorava lágrimas que lhe amarguravam o coração ainda a pouco palpitante em
efusão de ternura, quando fazia saltar o Bebê ao colo e via-o sorrir com
aquele sorriso angélico que lhe acentuava as covinhas das faces. Era o seu
primeiro filhinho e queria-o com tanto desvelo!
Fugia-lhe
o sorriso, já não corria. O sossego desertara de sua alma e o pesadelo
horrível, a ideia negra da morte roçava-lhe o espírito como a asa de um’ave
agoureira, quando a aflita mãe espreitava o sono da inocente criança num
arquejar de doente a estremecer, tempo diferente das noites tranquilas, em que,
receosa de assustá-lo, guardava o beijo para o seu despertar e o envolvia em
carícias suaves, numa explosão súbita de amor, como só as mães sabem fazê-lo.
Então...
Ele morreria! Vê-lo-ia no caixãozinho azul, coberto de rosas, perfumado de
jasmins e a sua fronte esmaecida como uma bonina fanada, repousaria para sempre
longe de seu regaço amantíssimo. O berço ficaria vazio e não mais na alcova
confortável, ela o embalaria a cantar suavemente em harmonias castas, a música
inefável do poema sublime do amor materno.
Sim...
está salvo o Bebê! Ei-lo a estender de novo os braçinhos, volta-lhe a cor rosada
das faces, onde as covinhas se formam mais gentis.
Foram-se
tantos os sustos, já a feliz mãe não pensa na morte!
O
espectro final da angina a arrebatar-lhe o filho desapareceu, e as cortinas do
gracioso leito se levantaram para que o convalescente veja um pedaço do céu
pela fresta da janela entreaberta, por onde vagam suaves perfumes de
madre-silvas em flor.
Não
foi a medicina nem tampouco o seu aparato terapêutico e científico, nem mesmo a
ternura maternal que disputara corajosamente à morte a vida do filho, não foi o
anjo da guardado Bebê que lhe restituíram a cor bonita das faces.
Foram
simplesmente duas colherinhas de CAFÉ (rasurado) que salvaram o Bebê e deram
alegria e conforto ao coração de sua mãe extremosa!
F. Clotilde. Almanack de Ceará. Fortaleza CE, 1909 pp. 210/211.
PARALELO (À D Cândida de Barros)
Enquanto tu, oh! Filha do opulento
dorme no teu leito macio abrigado por finíssimas cortinas e vês em redor de ti
um manto acariciador de afetos e conforto sempre pronto a envolver-te em doce tepidez quantas
criancinhas pobres sentem frio nos casebres deteriorados, por onde a chuva
penetra levando a umidade doentia das noites hibernais!
Quantas mãozinhas enregeladas procuram
esconder-se sob os andrajos, em busca do calor que lhes aqueceria o sangue e
lhes amaria a vida tão cheia de privações !
Enquanto tu passas longos dias de
inverno na sala tapetada, lendo bonitos trechos, desfrutando as comodidades,
da riqueza sem que uma refrega de vento
te fustigue o rosto, eles, os pobrezinhos, muitas vezes famintos, expõem-se as
bategas de água, afrontam a lama e sentem a sensações da miséria com todo o
rigor, com toda a força aterradora de que tu zombas.
Pensa neles que sofrem tanto, pensa
nos filhos do pobre que trabalha nos descampados, cultivando a terra, com os
pés descalços, a cabeça descoberta, o corpo mal agasalhado, enquanto tu,
saudando o inverno com cânticos de jubilo, seismas na delicia das noites
passadas no suave conchego da família.
Que um sentimento de caridade te
inspire a preparar com as fazendas que
te sobram dos trajos luxuosos, uma roupinha
mais decente para os míseros entes a quem os pais mal podem salvar de
morrer de fome, reserva do dinheiro que desbaratas em frioleiras e objectos de
vaidade, um pouco para que a criança desvalida da fortuna possa ter alguns momentos de conforto.
Si assim fizeres que doce e inefável prazer não te inundará o coração
!
Verás então que acima dos gosos da
riqueza, dos passageiros deleites da opulência, acima do apreço dos homens e
dos encantos da beleza, há o prazer sublime de praticar o bem.
Verás então que ha uma coroa superior
a todas que te podem emoldurar a fronte:
a que há de tecer-te o amor da pobreza agradecida e na qual se hão de gastar as lagrimas das crianças, lágrimas que enxugaste com a tua meiguice
caritativa e boa.
Revista O Lyrio. Recife PE, 05/05/1903
CONTO INFANTIL (Para Dinorah)
Quando o sol emergia
no límpido horizonte da Palestina espalhando no seio dos vales a sua luz
criadora e deslumbrante, ele sabia da humilde casinha do carpinteiro
e descia a colina, um doce sorriso a brincar-lhe nos lábios e o olhar divino
irradiando um sentimento de ternura indefinível.
E colhia muitas
flores por entre os liriais nitentes, cobertos do fresco orvalho da madrugada.
- Porque gostais
tanto desta flor? perguntou-lhe um querubim de asas fulgentes que viera do céu,
entreter-se com o pequeno Jesus.
Sentia-se no ar o
delicioso aroma das corolas puríssimas que se entreabriam aos beijos da luz, e
a viração matutina sacudia de manso os cabelos alourados do futuro Redentor.
- Porque gosto de
lyrios ?
E Jesus aspirou com
delicia uma flor meio desabrochada que acabava de separar da haste verdejante.
São eles o símbolo da pureza das consciências imaculadas, das almas inocentes. Eu amo
os lyrios porque têm a cor nevada e, sua essência delicada é como
o perfume de virtude dos corações que fogem do mal.
Enquanto o anjo
espalmando as suas asas defendia o gracioso Deus-menino dos raios quentes do
sol, Jesus colhia mais um punhado de flores e alegre, a sorrir, galgava a
colina espalhando aromas, difundindo
uma luz etherea sobre a estrada limpa.
Oh! A pureza da
consciência como agrada aquele que se compraz entre os lyrios e folga de estar
no meio dos perfumes da flor virginal!
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MARINA
Nascera em pleno
oceano e os seus primeiros sonos embalaram-no as vagas revoltas, naquela noite
hibernal em que o navio sulcava o dorso das aguas, em perigosa travessia..
Devia chamar-se
Marina e assim foi. Era a criança mais linda que se podia imaginar e o seu
sorriso tinha uma graça inefável, uma doçura infinita.
Nos seus olhos
refletia-se o verde das ondas e a luz radiosa da estrella polar. Todas a
estimavam e, quando ela completou sete anos era tão interessante, tão viva que
por onde passava, despertava admiração e espalhava afetos..
Marina tinha um
coração de ouro, não podia ver uma lágrima, não fazia sofrer ninguém. As
meninas da sua idade adoravam-na e, se ela não tomava parte nos brinquedos,
ficavam triste porque sem o seu encanto infantil nada lhes parecia bom, nem apresentava atrativo algum.
.Como ela adorava o mar! Passava horas inteiras apreciando o movimento das ondas, apanhando búzios e conchinhas que se irisavam ao reflexo do sol. O barulho das águas era para o seu coração uma música deliciosa. Muitas vezes adormecia numa gruta que havia nas proximidades da costa sonhava cousas maravilhosas, surpreendentes, incompreensíveis. Mesmo, nos dias de tempestade, quando os elementos se desencadeavam e os barcos eram o joguete das vagas enfurecidas, pondo em risco a vida de muitas pessoas, a gentil menina não deixava de ir visitar o seu berço e estranhava aquela a agitação, aqueles embates terríveis que a assustavam enchendo-a de apreensões sinistras.
Então em face do
oceano proceloso, vendo o céu coberto de nuvens negras, sem um pedacinho azul a
sorrir, sem um ris de bonança a pressagiar o bom tempo, ela se ajoelhava na
praia desolada e erguia ao céu uma prece fervorosa. Rogava pelos viajantes e
pelos pescadores que se arriscavam a afrontar a procela, volvia um olhar
angustiado para a superfície convulsionada e pedia à Estrella do Mar que os
protegesse estendendo sobre eles a destra misericordiosa.
Uma tarde o tempo estava horrível e nevoeiro espesso ocultava o brilho do sol. O Mar lutava com indescritível fúria e parecia querer ultrapassar o limite das praias. As famílias dos pescadores com o coração ansioso aguardavam a volta dos barcos e receavam que se desse algum desastre.
Marina como um anjo
da esperança lhes sorria dizendo palavras de conforto.
De súbito um grito
vibrou estertorante, quase em desespero.
O barco do velho
Tiago, pai de Jorge, um pequenito louro que chorava na praia ameaçava
submergir-se.
Uma forte impressão
de susto roubara a coragem a todos que se achavam na praia.
Marina não perdeu a
presença de espírito. Parecia dominar a fúria da tempestade com a sua presença
- Vamos salvá-los
pai, urge socorrê-los.
E eIa mesmo deu o
exemplo tomando ousadamente um bote e incitando seu pai a acompanhá-la.
No meio das trevas
que se tornavam cada vez mais compacto o
seu vestidinho branco era um doce símbolo de amor, uma promessa de bonança e de
paz.
Choravam comovidos
aplaudindo o ato generoso da menina.
Dentro de meia hora
voltavam sã e salvos e o barco do velho Tiago entrou sem nenhum embate no
abrigo do porto,
Fez-se a serenidade, o azul límpido reapareceu, uma estrella palpitou medrosa, num pedacinho do céu varrido de nuvens e todos levavam em triunfo a graciosa Marina com os cabelos soltos, o vestidinho molhado; mas tão feliz e risonha com o coração cheio de tinia doçura imensa e cada vez mais amiga do oceano que parecia compreendê-la e a obedecer ao encanto irresistível de sua inocência e de seu afeto.
Revista A Estrella. Aracati CE, out de 1915 p 36-38




