É no lar, santuário íntimo de seus mais puros afetos que a mulher deve ostentar
verdadeiramente a bondade a ternura de seu coração, tornando-se o anjo
da guarda do esposo
e dos filhos e lhes
inspirando o bem e a virtude.
A natureza dando à mulher
uma constituição fraca
e um temperamento
nervoso não
a destinou à vida da luta, no seio
da sociedade, entregue
às agitações e ao afã
dos negócios; reservou-a como uma relíquia
mimosa para a
família, para
aformosear este
pequeno mundo
intimo, onde ela
tem de exercer sua
benfazeja influência
no tríplice papel
de filha, esposa
e mãe.
Com efeito,
se ela ultrapassando o limite
que lhe
foi traçado por mãe
sábia e previdente
atirar-se ao torvelinho do mundo, entregando-se a vida tumultuaria que só
compete ao homem, gastará as forças e cairá extenuada sob
o peso da difícil
tarefa que
empreendera, sem ter
realizado o ideal que
aspirara e conhecendo talvez muito tarde que não era este o seu papel.
Há flores que se
desenvolvem na liberdade do campo; há outras, porém,
que apenas
nos limites
de um jardim
e cultivadas por mão
hábil podem crescer
e desabrochar.
A mulher assemelha-se a essas últimas flores, e no recinto
da família, cercada
dos cuidados dos entes
que a idolatram, e por
sua vez
enchendo-os de desvelos e solicitude é que
pode mostrar a exuberância
de seu coração
e a beleza de sua
alma.
Houve, porém, mulheres
que se imortalizaram por feitos gloriosos e que
a história nos
apresenta como verdadeiras heroínas.
Desde os mais remotos tempos, quando
a humanidade no embrião
da civilização lutava ainda com as trevas do obscurantismo,
a mulher surgiu iluminada por um esplendor divino
patenteando o poder e a força
irresistível de sua
fraqueza.
Todos os vultos femininos
que admirarmos na história
antiga podem ombrear
com as heroínas
da idade média
e com as mulheres
célebres da nossa
época, nas quais
a civilização imprimiu um beijo de luz.
Se Judith embebeu na garganta do opressor
dos judeus o punhal
homicida, Roland emaranhou-se na política para destronizar um
rei pusilânime
e aclarar a Franca
com o sol
da liberdade, e servindo-se do gládio de sua pena inspirada com
ela acutilou o despotismo
e a tirania.
Seria
longo repetir
os nomes dessas mulheres
que se imortalizaram, mas não teremos
entre nós
outras heroínas iguais
a essas que arrastadas pela força do gênio se atiraram na arena
da luta por
amor de uma ideia,
ou pelo fanatismo de uma causa?
Sem sair
da doce obscuridade
do lar não
poderá certamente a mulher
figurar na história,
ao lado do homem
como o protótipo
do virtudes cívicas; porém que melhor celebridade
para ela do que reviver eternamente no coração
de seus filhos,
adorada, reverenciada como um modelo de virtudes e boas qualidades?
Que melhor
glória do que
educar futuros
cidadãos que
saibam honrar a pátria
e engrandecê-la com o mérito que sempre resulta das boas ações?
Na família é a mulher
a companheira do homem,
a educadora dos filhos.
Portanto não
deve esquecer nunca
que dela dependem a felicidade
e o futuro das tenras criaturas que
nela se revêem como em
um espelho
que deve refletir
as mais belas e puras imagens; que lhe cumpre velar incessantemente para desenvolver o bem naqueles corações ingênuos
e inexperientes, procurando todos os meios para depositar neles o gérmen que deverá produzir no decurso da vida
bons e salutares
frutos.
Uma mãe lê na alma dos filhos
com uma perspicácia,
verdadeiramente admirável.
Uma língua que
balbucia, uma face que
cora, um
olhar que se
perturba são para
ela indícios
de uma má ação que
é preciso conhecer
e cuja repetição
deve ser evitada para que não traga serias consequências.
Então, com a doçura que só ela possui, com
essa previdência quase
divina, segue os passos
vacilantes do filho
e cercando-o de uma prudente vigilância consegue desviá-lo do mal.
O menino molda-se à sua
vontade, à sua
influência, e guiado pelo
amor solícito
e desvelado que ela
lhe dedica cresce nas melhores disposições,
e tornando-se homem, se encontra na esposa
a mesma ternura
prossegue na senda do bem,
da qual só
o poderão afastar o turbilhão
de paixões desencadeadas e furiosas.
Ele pode resvalar
uma vez, mas
é sustido à borda do abismo por uma
angélica e carinhosa mão. Retrocede, e vai buscar
no asilo que
abandonou um instante
o esquecimento de sua
loucura.
A mulher digna de
sua nobre
missão transforma o lar
em um
paraíso e consegue com
um sorriso
desviar dele todas as aflições,
desterrar todas as tristezas.
Com uma acenada economia mantém o equilíbrio
dos negócios domésticos,
e coloca as despesas ao nível
dos meios de que
o marido pode dispor.
Desdenha os ornatos frívolos,
e faz das boas maneiras e das graças que dá a
educação a par
da amabilidade, o seu
principal adorno.
Encarrega-se de instruir o espírito
dos filhos, e para
isso deve possuir
uma boa soma de conhecimentos
úteis e uma instrução aprimorada.
Nos agradáveis
serões familiares
entretém com os dotes
de sua inteligência
o prazer e a união,
evitando assim que
o marido e os filhos
vão procurar
freqüentemente em
outra parte
as distrações que
podem ter ao lado
dela, e em um
delicioso conchego solidifica o edifício de sua
felicidade, e estreita
cada vez
mais os laços
formados pelo sangue
e pelo amor.
Não quero dizer
com isto
que ela
se abstenha de frequentar a sociedade
e que se encerre em
casa, o que
seria monótono e fastidioso.
Deve pelo
contrário cultivar
boas relações, tendo, porém, o máximo
cuidado em
escolhê-las, porque assim
como uma amiga
sincera é um
tesouro de raro
valor, também
uma amiga fingida é uma serpente que mais cedo ou mais tarde inocula o veneno
de sua alma
naqueles com quem
convive.
A boa esposa auxilia em
todas as ocasiões com
prudentes conselhos
o companheiro de sua
vida, e nunca
o inibe de tornar-se útil á sociedade e a seus semelhantes por
um exagerado egoísmo
e um excessivo
afeto mal
entendido.
É ela a primeira
a dizer-lhe o que deve fazer,
e tornar fácil
o que lhe
parecia difícil, a compartilhar
as decepções e prazeres
que lhe
sobrevenham nas alternativas da vida, sendo sempre
a amiga desvelada e carinhosa
pronta a derramar
gota a gota
o amor que
se alberga no seu coração
sobre a existência
daquele a quem ligou a sua.
Não será mil vezes mais glorioso
desempenhá-lo e fazer da criança
um homem
útil à pátria
e à família do que
sentar-se nos bancos
de academias em
busca de um
pergaminho, ou
acompanhar os vaivéns
da política, duende
fatal que
deve amedrontar até
os animais varonis?
Não será mais proveitoso
para a mulher
entreter-se horas e horas
a cuidar das lides
domésticas e a velar pelo
bem estar da família do que
entregar-se ao desempenho de cargos públicos,
nos quais
gasta a saúde
e aniquila o espírito?
Longe vai felizmente a era
obscura em
que ela
agrilhoada ao mais cruel
preconceito e sob
o jugo de uma lei
bárbara era
uma escrava, um
simples objeto
de luxo para
o homem.
Hoje existe por si mesma, conhece seus
deveres, pode dispor
de luzes suficientes
para não se perder na noite da ignorância, e fazendo do lar
o seu mundo,
concentrando na família as suas mais caras aspirações
viverá feliz e fará a felicidade
dos outros.
Educai, pois, a mulher,
ajuntai aos dotes naturais
que a embelezam os encantos
de um espírito
cultivado, avigorai-lhe os bons sentimentos, tornai-a enfim
digna de educar
os filhos e prepará-los para
a vida completa,
e ela será um
diamante de inexcedível
valor, a lâmpada
maravilhosa a espargir
luz em
torno do lar,
a fonte de onde
dimanarão a prosperidade e a ventura de família.
A Quinzena, N. 5 e 6. Fortaleza, 15 de Março de 1887 p. 40 e 30 de Março 1887, pp. 47-48.
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