Hoje, que o movimento progressista da humanidade se tem
desenvolvido de modo extraordinário e animador, não é de estranhar que a
mulher, deixando-se arrastar na onda de entusiasmo, fique ao lado do homem na
luta pelas boas causas.
Desde os tempos mais remotos, vemo-la desempenhar um
importante papel, apesar de ser considerada frágil e inconstante pelos
espíritos pessimistas.
A história bíblica
fala-nos de Débora doutrinando o povo à sombra das palmeiras e dando-lhes
planos de batalha para repelir o inimigo; mostra nos a linda viúva
de Betúlia que, inspirada por Deus, penetrou no campo dos Assírios e conseguiu
degolar o general Holofernes.
Ao lado de Judite de destaca-se a figura não menos gentil de
Ester que com uma diplomacia encantadora conseguiu vencer Assuero e salvar seus
irmãos oprimidos.
A coragem de mãe dos Macabeus alia-se ao valor da mãe de
Gracos, que ia ao templo agradecer aos Deuses em vez de prantear a morte dos
filhos em defesa da Pátria.
Clotilde, a esposa de Clóvis, foi fundadora da monarquia
francesa e à sua influência deveu a França um período de prosperidade e de
vitórias.
Foi o próprio Deus que arrancou a pastorinha de Domremy à
placidez de sua vida simples e atirou-a no campo da luta para fazer sangrar
Carlos VII e salvar o império francês.
O nome de Joana D’Arc é venerado por todos e a Igreja a
colocou entre os bem aventurados porque o seu patriotismo irradiava os reflexos
da virtude mais sólida, de pureza mais angelical.
Foi Catarina de Médicis a instigadora fanática dessa tragédia horrorosa que fez correr o sangue dos huguenotes na Saint Barthélemy e, quando a França se debatia agitada convulsionada na revolução cujo advento foi a tomada da Bastilha, as mulheres inflamaram-se e acompanharam os cidadãos nessa tentativa audaciosa de tomar a fortaleza secular sem temer os canhões, nem a guarda real, auxiliando, animando, batendo-se ao lado dos defensores da causa do povo.
Théroige de Mericourt, a revolucionária das ruas sobressaia
nas caminhadas populares e foi Mme. Roland´ a alma da revolução cujo cérebro
idealizava planos da mais alta política entre os Girondinos e cuja cabeça ao
cair no cadafalso ainda teve lampejos de inteligência pelo bem do povo.
Em que pese aos obscuristas, o tempo do fuso e da roca já
desapareceu na voragem do passado e hoje a mulher, se não tem o direito de se
apresentar nos comícios eleitorais, porque a lei não lh’o quis ainda conferir,
tem o direito sagrado de acompanhar o homem, máxime quando ele se bate pela
pátria em seus dias nefastos e trabalha pela liberdade e pelo progresso.
Por que estranhar que se tenha criado a Liga Feminina em
prol de uma candidatura que é a esperança de um Estado oprimido e digno de
melhor sorte?
Porque censurar as manifestações a que as próprias crianças se associam com o sorriso nos lábios e a inocência lhes irradiando na fronte?
Falem contra a mulher cearense; eu aplaudo-a porque confio que a sua presença nestas festas populares é um prenúncio de triunfo para a boa causa e concito-a reanimar o valor de seus filhos e a ensinar-lhes que, acima dos governos mal inspirados, está a imagem da Pátria pedindo amor e sacrifício, impondo-se à nossa veneração, pairando serena e controlada como o céu que se desdobra sobre nossas cabeças lembrando-nos que Deus para reunir a humanidade teve também o concurso sublime de uma mulher que Ele colocou à sua destra, acima de todas as criaturas, no fastígio da glória e da imortalidade.
(FRANCISCA. CLOTILDE. Pelo Ceará. Aracati - CE, 1912 pp. 6-8)
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